Autora: Alessandra Madureira
Disciplina: Redes Sociais e Virtuais
Data: Maio de 2026
Imagine um vídeo de 60 segundos prometendo que você pode dobrar seu dinheiro em um mês investindo em criptomoedas, e esse vídeo sendo assistido dois milhões de vezes em 48 horas. Essa cena, cada vez mais comum no Brasil, revela uma tensão crescente na era digital: nunca se falou tanto sobre dinheiro nas redes sociais, mas nunca também houve tantos riscos escondidos em conteúdos financeiros que se tornam virais.
Para educadores e professores que buscam preparar seus alunos para o mundo contemporâneo, compreender esse fenômeno é uma obrigação pedagógica. Afinal, é na escola que se pode construir o pensamento crítico capaz de enfrentar, e filtrar o oceano de informações financeiras que circula diariamente no Instagram, TikTok, YouTube e WhatsApp.
O Crescimento dos "Finfluencers" no Brasil
O termo finfluencer — fusão de financial com influencer, descreve os criadores de conteúdo que se dedicam a falar sobre finanças nas redes sociais. No Brasil, esse universo cresceu de forma impressionante. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), em sua 8ª edição do relatório FInfluence, foram monitorados 741 influenciadores responsáveis por 1.662 perfis nas redes sociais, que publicaram cerca de 394 mil conteúdos no segundo semestre de 2024 apenas no X, YouTube, Instagram e Facebook. O engajamento médio dessas publicações registrou crescimento de 21%, alcançando 2.965 interações por publicação — o maior volume já registrado desde o início das pesquisas da associação (ANBIMA, 2024).
Esses números revelam o tamanho da influência dessas figuras. Para uma parcela expressiva da população jovem, os finfluencers tornaram-se a principal fonte de referência sobre investimentos, orçamento pessoal e consumo consciente. A linguagem acessível, os formatos curtos e a informalidade característica das plataformas digitais transformaram temas antes considerados áridos e técnicos em assuntos do cotidiano.
Contudo, há uma face preocupante nesse fenômeno. De acordo com o mesmo relatório da ANBIMA, 48% dos finfluencers mantinham alguma relação comercial com empresas do mercado financeiro, como bancos e corretoras, e esse endosso nem sempre fica evidente para o público consumidor do conteúdo. Além disso, esses influenciadores não são necessariamente economistas, analistas ou investidores habilitados: a principal categoria de atuação é a de "produtor de conteúdo", como eles mesmos se definem.
📺 Para entender como esse ecossistema funciona, assista ao especial do canal ANBIMA no YouTube sobre o relatório FInfluence.
Dicas Virais: Entre a Informação e a Desinformação
Nem todo conteúdo financeiro viral é necessariamente falso, mas a lógica das redes sociais, que premia o engajamento rápido e a simplificação — é estruturalmente incompatível com a complexidade do mundo das finanças. Um conselho sobre investimentos que ignora o perfil de risco do investidor, o prazo, a tributação e o contexto econômico pode causar prejuízos reais a quem o segue sem crítica.
Pesquisadores do Swiss Finance Institute conduziram um estudo em julho de 2023 avaliando o impacto real dos finfluencers. Os resultados indicaram que uma parcela expressiva dos investidores de varejo decide onde aplicar seu dinheiro com base em recomendações de influenciadores digitais, muitas vezes sem verificar as credenciais de quem os aconselha.
O cenário ganha contornos ainda mais preocupantes quando se observa a proliferação de conteúdos gerados com Inteligência Artificial. Um estudo do Observatório Lupa revelou que conteúdos falsos gerados com IA aumentaram 308% entre 2024 e 2025 no Brasil, circulando principalmente em redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes em forma de anúncios patrocinados ou vídeos virais (LUPA, 2025).
Os Golpes Financeiros: Quando o Viral Vira Armadilha
A fronteira entre uma dica financeira imprecisa e um golpe deliberado pode ser tênue. No Brasil, o avanço dos crimes financeiros digitais tem sido vertiginoso. Dados do DataSenado apontam que 24% dos brasileiros adultos foram vítimas de golpes digitais nos últimos 12 meses. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), as perdas geradas giram em torno de R$ 10,1 bilhões em 2024 (FEBRABAN, 2024).
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 revelou um aumento de 13,6% no número de estelionatos digitais entre 2022 e 2023, enquanto houve uma redução de quase 30% de roubos físicos a bancos, evidenciando uma clara migração dos crimes para o ambiente virtual (FBSP, 2024).
Entre os golpes mais comuns praticados por meio das redes sociais, destacam-se:
Falsos investimentos: promessas de retornos extraordinários em curto prazo, frequentemente associadas a criptomoedas;
Esquemas pump-and-dump: valorização artificial de ativos promovida por influenciadores pagos, seguida de venda rápida pelos organizadores do golpe;
Anúncios maliciosos: segundo pesquisa do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab/UFRJ), as plataformas da Meta, Facebook, Instagram e WhatsApp estão sendo utilizadas por golpistas para veicular anúncios enganosos que imitam comunicações governamentais, como programas de benefícios e auxílios fictícios;
Deepfakes financeiros: vídeos manipulados com IA que simulam declarações de celebridades ou especialistas recomendando investimentos fraudulentos.
🔗 Leia a reportagem completa da Agência Brasil sobre o estudo do NetLab/UFRJ: Redes da Meta facilitam aplicação de golpes financeiros
O Papel do Educador Diante Desse Cenário
Se as redes sociais são o principal ambiente onde os jovens consomem informações financeiras inclusive as equivocadas, a escola precisa se posicionar como espaço de leitura crítica desses conteúdos. Mais do que ensinar fórmulas de juros compostos, o professor contemporâneo é chamado a exercer um papel de mediador da informação digital.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já aponta esse caminho. A educação financeira está incluída no documento como tema transversal contemporâneo, inserido na macroárea de Economia, e pode ser trabalhada de forma interdisciplinar em todas as áreas do conhecimento de Matemática a Língua Portuguesa, passando por História e Ciências (BNCC, 2018). No ensino médio, a BNCC registra que "cresce a importância da educação financeira e da compreensão do sistema monetário contemporâneo nacional e mundial, imprescindíveis para uma inserção crítica e consciente no mundo atual".
Em abril de 2025, o Ministério da Educação (MEC) apresentou um novo programa nacional dedicado à educação para a cidadania financeira, fiscal, previdenciária e securitária nas escolas brasileiras de educação básica. Na ocasião, o gerente de projetos do Conselhão da Presidência da República, Adriano Laureno, afirmou ser "fundamental disputar, por meio da disseminação do conhecimento, com narrativas que pregam um enriquecimento fácil, uma certa ilusão desse cenário" (MEC, 2025).
Contudo, o desafio é real: uma pesquisa do Instituto XP e da Nova Escola apontou que 59% dos professores afirmam não ter recebido formação sobre educação financeira e não ter acesso a materiais didáticos de qualidade para trabalhar o tema com os alunos.
🔗 Saiba mais sobre como a BNCC aborda a educação financeira no portal Porvir.
Como Abordar o Tema em Sala de Aula?
A seguir, algumas abordagens práticas que educadores podem adotar para trabalhar os riscos das dicas financeiras virais:
1. Análise crítica de conteúdo Selecionar um vídeo viral de finfluencer e propor uma análise coletiva: quem é esse criador? Ele tem habilitação? Qual é o interesse comercial por trás do conteúdo? Há fontes verificáveis?
2. Comparação entre fontes confiáveis e não confiáveis Apresentar ao lado do conteúdo viral materiais produzidos por fontes reguladas, como o Banco Central do Brasil, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou o programa Aprender Valor, do Banco Central.
3. Simulação de golpes digitais Criar situações hipotéticas (sem links reais) para que os alunos identifiquem características típicas de fraudes: promessas de ganhos muito acima do mercado, senso de urgência artificial, ausência de CNPJ ou registro regulatório.
4. Projeto interdisciplinar Integrar a discussão com Língua Portuguesa (análise do discurso persuasivo em textos publicitários), Matemática (cálculo de juros e rentabilidade realista) e Ciências Humanas (contexto socioeconômico do endividamento no Brasil).
As redes sociais democratizaram o acesso à informação financeira, e isso tem valor. Contudo, democratizar o acesso não significa garantir a qualidade ou a segurança dessa informação. No atual ecossistema digital, onde um vídeo de 60 segundos pode convencer um jovem a investir as economias da família em um ativo fraudulento, a escola e seus educadores ocupam uma posição insubstituível.
Formar cidadãos financeiramente letrados não é mais uma tarefa opcional ou restrita à disciplina de Matemática. É uma demanda urgente de cidadania digital, e os professores são seus principais agentes. Reconhecer os riscos das dicas financeiras virais, debatê-los em sala de aula e desenvolver o olhar crítico dos estudantes são ações que vão muito além de qualquer algoritmo ou trend do TikTok.
Referências
ANBIMA. FInfluence: Quem fala de investimentos nas redes sociais. 8. ed. São Paulo: ANBIMA, 2024. Disponível em: https://www.anbima.com.br/pt_br/especial/influenciadores-de-investimentos-8.htm. Acesso em: mai. 2026.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: mai. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Programa de educação financeira é apresentado pelo MEC. Brasília: MEC, abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/abril/programa-de-educacao-financeira-e-apresentado-pelo-mec. Acesso em: mai. 2026.
FEBRABAN. Golpes bancários mais frequentes em 2024/2025. São Paulo: Federação Brasileira de Bancos, 2025. Disponível em: https://em.com.br/emfoco/?p=4122. Acesso em: mai. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/anuario-brasileiro-seguranca-publica/. Acesso em: mai. 2026.
FRASÃO, Anderson; HEINRICH, Tiago; FULBER-GARCIA, Vinicius. O Cenário Atual de Golpes em Redes Sociais: Uma Revisão da Literatura. In: Computer on the Beach (COTB), 2025, Itajaí. Anais [...]. Itajaí: UNIVALI, 2025. Disponível em: https://www.inf.ufpr.br/vinicius/files/COTB-2025-1.pdf. Acesso em: mai. 2026.
GIRO. Golpes com IA: confira 5 dicas para se proteger. 2026. Disponível em: https://girosa.com.br/golpes-com-ia-confira-5-dicas-para-se-proteger/. Acesso em: mai. 2026.
NETLAB/UFRJ. Redes da Meta facilitam aplicação de golpes financeiros. Agência Brasil, 7 fev. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-02/redes-da-meta-facilitam-aplicacao-de-golpes-financeiros-aponta-estudo. Acesso em: mai. 2026.
PORVIR. Educação financeira: da BNCC para o dia a dia do estudante. 2024. Disponível em: https://porvir.org/educacao-financeira-bncc-dia-a-dia-estudante/. Acesso em: mai. 2026.
SAE DIGITAL. Educação Financeira — Como trabalhá-la em sala de aula? 2023. Disponível em: https://sae.digital/educacao-financeira-como-trabalha-la-em-sala-de-aula/. Acesso em: mai. 2026.
SENADO FEDERAL. Golpes virtuais aumentam e não fazem distinção de idade. Brasília: Senado Notícias, abr. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2025/04/golpes-virtuais-aumentam-e-nao-fazem-distincao-de-idade. Acesso em: mai. 2026.
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