quarta-feira, 13 de maio de 2026

Etnomatemática e Redes Sociais

O QUE É A ETNOMATEMÁTICA E COMO ESTÁ RELACIONADA COM AS REDES SOCIAIS?

Por Pietra Martins Machado Suzin 


    Há um senso comum de que a Matemática é um conhecimento universal e engessado, em que não cabe a concepção de outras formas de pensar e fazer Matemática. Essa ideia é reforçada por Clareto (2003, p.2), a qual afirma que “A  modernidade  trata  a  Matemática  e  todos  os  saberes  e  conhecimentos  no  singular.  Ou  seja,  o  saber,  o  conhecimento  é tomado como se fosse único, universal e inquestionável.”

    Essa visão não trata da possibilidade da existência de pluralidade dentro do campo de conhecimento matemático. Contudo, vale ressaltar que tratar a Matemática de uma forma única é interessante, no sentido em que ela se caracteriza como uma linguagem universal, de modo que qualquer pessoa do mundo fala sobre a mesma Matemática, independentemente da sua localização geográfica. Assim, o mundo inteiro está conectado por essa linguagem, o que proporciona a interação entre grupos e redes sociais no âmbito mundial, e aqui entende-se rede social como todo e qualquer tipo de interação e agrupamentos sociais, que pode ou não se dar de forma virtual.

    Podemos visualizar essa relação como a Matemática, essa tida como universal, sendo um ponto central no qual grande parte da população está conectado a ele, tendo em vista que é esta a forma de pensar e fazer Matemática que se ensina e se utiliza nas principais esferas da sociedade. Por isso, aqui vemos novamente a importância de estar conectado á esse conhecimento, pois com isso podemos nos comunicar dentro dessa rede sem precisar fazer traduções ou conversões.

Fonte: Sobre Comunicações Distribuídas

    Então, percebe-se que para que seja possível a existência e permanência de uma Matemática universal é necessário que um tipo de pensamento se sobressaia aos demais, à medida que:

A  Matemática  escolar  e  acadêmica  é  um  produto  cultural  da  civilização  européia,  mais  propriamente  da  Europa  Ocidental,  com  permeações  árabes,  que  acabou  por  ser  imposta,  juntamente  com  várias  outras  manifestações  culturais,  às  colônias,  no  período  das  colonizações  das  Américas,  Ásia  e  África.  Daí  seu  caráter  “universal”. (CLARETO, 2003, p.13).

    Por outro lado, D’Ambrósio (2011) traz uma outra visão da Matemática, não mais como um conhecimento engessado e universal e sim mais plural e étnico, para isso o autor define a Etnomatemática, que segundo o mesmo:

Etnomatemática é a matemática praticada por grupos culturais, tais como comunidades urbanas e rurais, grupos de trabalhadores, classes profissionais, crianças de uma certa faixa etária, sociedades indígenas, e tantos outros grupos que se identificam por objetivos e tradições comuns aos grupos. (D’Ambrósio, 2011, p. 9)

    A partir dessa definição, observa-se que a Matemática amplamente usada e ensinada é também uma Etnomatemática desenvolvida por um grupo social especifico e, que por questões históricas e sociais, foi adotada como padrão. Esta constatação é reforçada por Sônia Maria Clareto em seu artigo Educação Matemática e Contemporaneidade: Enfrentando Discursos Pós-Modernos .

    Ademais, tendo em vista este conceito, percebe-se que a Etnomatemática está diretamente relacionada com as redes sociais. Pois é dentro de grupos sociais, que estão conectados por interesses específicos, que surge a Matemática e a sua pluralidade étnica. D’Ambrósio (2011, p. 60) ressalta que: 

De fato, em todas as culturas encontramos manifestações relacionadas, e mesmo identificadas, com o que hoje se chama matemática (isto é, processos de organização, de classificação, de contagem, de medição, de inferência), geralmente mescladas ou dificilmente distinguíveis de outras formas, que são hoje identificadas como Arte, Religião, Música, Técnicas, Ciências.

    Nesse sentido, partindo desta outra visão, podemos pensar que a Etnomatemática, a qual engloba diversas formas de se pensar e fazer Matemática, pode ser expressada e disposta como sendo uma rede descentralizada, em que cada comunidade, sejam elas quais forem cada uma com a sua cultura, dentro da sua rede de convívio social, produz conhecimentos e saberes Matemáticos, diferentemente da primeira configuração citada. E estes conhecimentos muitas vezes são exclusivos de determinado grupo, no sentido em que não há uma conexão direta com outras comunidades. Um exemplo que ilustra esta observação é o seguinte:

Embora o calendário reconhecido internacionalmente seja aquele proclamado pelo Papa Gregório XIII, em vigor desde 15 de outubro de 1582, há no mundo cerca de 40 calendários atualmente em uso. A construção de calendários, isto é, a contagem e registro do tempo, é um excelente exemplo de etnomatemática. (D’AMBRÓSIO, 2011, p. 21)


    Por fim, D`Ambrósio (2011, p. 23) afirma que a Etnomatemática é parte do cotidiano e que esta Etnomatemática do cotidiano "É uma etnomatemática não apreendida nas escolas, mas no ambiente familiar, no ambiente dos brinquedos e de trabalho, recebida de amigos e colegas." Portanto, a Etnomatemática é fruto das redes sociais, ela surge nas necessidades e interações do dia a dia. Com isso, percebe-se que esta visão mais plural e étnica da Matemática reforça a complexidade e relevância das redes sociais, as quais impactam diretamente em diversos aspectos da vida dos indivíduos que a compõem.

REFERÊNCIAS:

CLARETO, S. M. Educação Matemática e contemporaneidade: enfrentando discursos pós-modernos. Bolema, Rio Claro, v. 15, n.17, p. 20-39, maio, 2002. 

D'AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.


Declaro que não utilizei, em nenhuma etapa do desenvolvimento do presente trabalho, ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Assumo integral responsabilidade pelo conteúdo, conforme os princípios de integridade acadêmica e a legislação vigente.




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