O QUE É A ETNOMATEMÁTICA E COMO ESTÁ RELACIONADA COM AS REDES SOCIAIS?
Por Pietra Martins Machado Suzin
Há um senso comum de que a Matemática é um conhecimento universal e engessado, em que não cabe a concepção de outras formas de pensar e fazer Matemática, tendo em vista que:
A modernidade trata a Matemática e todos os saberes e conhecimentos no singular. Ou seja, o saber, o conhecimento é tomado como se fosse único, universal e inquestionável. O conhecimento, no singular é, para a modernidade, o conhecimento científico fundado na Matemática, sustentado pela razão moderna ocidental. (CLARETO, 2003, p.2).
Tratar a Matemática de um forma única é interessante, no sentido em que ela se caracteriza como uma linguagem universal, de modo que qualquer pessoa do mundo fala sobre a mesma Matemática independentemente da sua localização geográfica. Assim, o mundo inteiro está conectado por essa linguagem, o que proporciona a interação entre grupos e redes sociais no âmbito mundial.
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Contudo, para que seja possível a existência e permanência de uma Matemática universal é necessário que um tipo de pensamento se sobressaia aos demais, à medida que:
A Matemática escolar e acadêmica é um produto cultural da civilização européia, mais propriamente da Europa Ocidental, com permeações árabes, que acabou por ser imposta, juntamente com várias outras manifestações culturais, às colônias, no período das colonizações das Américas, Ásia e África. Daí seu caráter “universal”. (CLARETO, 2003, p.13).
Nesse sentido, Clareto (2003, p.13) acrescenta que essa Matemática dita universal é também uma Etnomatemática. De fato, segundo D’Ambrósio (2011, p. 9):
Etnomatemática é a matemática praticada por grupos culturais, tais como comunidades urbanas e rurais, grupos de trabalhadores, classes profissionais, crianças de uma certa faixa etária, sociedades indígenas, e tantos outros grupos que se identificam por objetivos e tradições comuns aos grupos.
Assim, a Matemática amplamente usada e ensinada, é a Etnomatemática desenvolvida por um grupo social especifico e, que por questões históricas e sociais, foi adotada como padrão.
Tendo isso em vista, percebe-se que a Etnomatemática está diretamente relacionada com as Redes Sociais, e aqui entende-se Rede Social como todo e qualquer tipo de interação entre agrupamentos sociais, que pode ou não se dar de forma virtual. Pois é dentro de grupos sociais, que estão conectados por interessas específicos, que surge a Matemática e a sua pluralidade étnica. D’Ambrósio (2011, p. 60) reforça que:
De fato, em todas as culturas encontramos manifestações relacionadas, e mesmo identificadas, com o que hoje se chama matemática (isto é, processos de organização, de classificação, de contagem, de medição, de inferência), geralmente mescladas ou dificilmente distinguíveis de outras formas, que são hoje identificadas como Arte, Religião, Música, Técnicas, Ciências.
Nesse sentido, podemos pensar que a Etnomatemática pode ser expressada e disposta de uma forma descentralizada, em que cada comunidade, sejam elas quais forem cada uma com a sua cultura, dentro da sua rede de convívio social, produz conhecimentos e saberes Matemáticos. E estes conhecimentos muitas vezes são exclusivos deste grupo, no sentido em que não há uma conexão direta com outras comunidades. Um exemplo que ilustra esta observação é o seguinte:
Embora o calendário reconhecido internacionalmente seja aquele proclamado pelo Papa Gregório XIII, em vigor desde 15 de outubro de 1582, há no mundo cerca de 40 calendários atualmente em uso. A construção de calendários, isto é, a contagem e registro do tempo, é um excelente exemplo de etnomatemática. (D’AMBRÓSIO, 2011, p. 21)
REFERÊNCIAS:
CLARETO, S. M. Educação Matemática e contemporaneidade: enfrentando discursos pós-modernos. Bolema, Rio Claro, v. 15, n.17, p. 20-39, maio, 2002.
D'AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
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