terça-feira, 22 de setembro de 2026

Experiências second screen (segunda tela)

    

O artigo analisa a convergência midiática entre a televisão e a internet, com ênfase nos fenômenos da TV Social e da chamada segunda tela. O artigo destaca a transição no comportamento da audiência, evidenciando como o público abandonou a condição de espectador passivo para atuar como um agente ativo no processo comunicacional. Por meio da utilização de dispositivos móveis, como smartphones e tablets, os indivíduos agora interagem, comentam e pesquisam conteúdos simultaneamente às transmissões televisivas.

A argumentação que essa integração tecnológica não indica o declínio ou o fim do meio televisivo, mas sim uma evolução interativa que reconfigura a experiência do usuário. Essa transformação é impulsionada pela adoção de narrativas transmídia e pela intensa participação em plataformas de redes sociais, que atuam como canais complementares à transmissão principal. Os impactos dessa dinâmica no mercado, aborda as novas metodologias necessárias para a mensuração de audiência e o potencial para que as marcas desenvolvam estratégias publicitárias focadas no engajamento dentro desse ecossistema hiper conectado em duas telas (second screen).

 Uma das principais estratégias do fenômeno da segunda tela é reter a atenção do telespectador na transmissão televisiva principal enquanto promove a interação simultânea em dispositivos móveis, como smartphones ou tablets. Dessa forma, é possível preservar os índices de audiência ao mesmo tempo em que o mercado publicitário desenvolve interfaces ativas de engajamento. Entre os recursos frequentemente utilizados, destacam-se a inserção de QR Codes na tela para a distribuição de descontos em produtos e a integração com salas de bate-papo (chats) na segunda tela. Tais ferramentas viabilizam uma comunicação ao vivo tanto entre os próprios espectadores quanto com os participantes da atração televisiva, resultando em um aumento expressivo no nível de interação e envolvimento do público.

A aplicação prática e o potencial desse modelo podem ser observados no mercado norte-americano, sendo o caso da Coca-Cola durante o Super Bowl um exemplo emblemático. Durante a veiculação do espaço publicitário na televisão, a audiência era convidada a enviar comentários e fotografias para um hotsite da campanha. O conteúdo gerado pelos usuários era reproduzido sequencialmente, complementado por interações virtuais dos tradicionais ursos polares da marca. Conforme aponta Cláudio Vasconcelos, em entrevista a agência CNI de notícias, o aproveitamento estratégico do universo da segunda tela viabiliza uma publicidade mais segmentada e eficaz. O especialista ressalta que essa dinâmica não apenas amplia a circulação de informações, mas também impulsiona a produção do mercado, culminando em um ecossistema audiovisual mais rico, complexo e interessante ao usuário.

SILVEIRA, Lívia Vieira da. A convergência entre televisão e internet: experiências de second screen (segunda tela). 2013. 54 f. Monografia (Graduação em Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS. Mexe no celular enquanto assiste TV? Isso é second screen. Agência de Notícias da Indústria, 26 ago. 2014. Disponível em: 21 de setembro 2026.

Declaração de Uso de Inteligência Artificial

Em conformidade com as diretrizes acadêmicas e os princípios éticos de transparência, declaro que a elaboração deste artigo contou com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial. O modelo Google Gemini foi empregado para a geração da imagem ilustrativa e para a revisão ortográfica e gramatical do texto. Adicionalmente, utilizou-se a plataforma Perplexity AI para o levantamento de referências bibliográficas e para a sua posterior adequação às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

 




Suga sua Energia e Você Nem Percebe: O Impacto Real das Redes Sociais na Nossa Mente

 Suga sua Energia e Você Nem Percebe: O Impacto Real das Redes Sociais na Nossa Mente

Autoria: Gustavo Queiroz Carrijo

Sabe aquela sensação de pegar o celular "só por cinco minutinhos" para olhar o Instagram ou o TikTok e, quando você finalmente olha para o relógio, já se passou mais de uma hora? Pois é, você definitivamente não está sozinho nessa. Hoje em dia, parece que estamos todos vivendo com a cabeça baixa, iluminados pela luz azul das telas, enquanto a vida real acontece ao nosso redor. 



O que no começo parecia uma revolução incrível para nos conectar com amigos distantes e democratizar a informação, acabou se tornando uma das maiores preocupações de saúde pública do nosso século. Hoje, os consultórios de psicologia e psiquiatria estão lotados de pessoas de todas as idades relatando os mesmos sintomas: ansiedade constante, sensação de vazio, problemas de autoestima e um cansaço mental que não passa. Mas, afinal, por que um simples aplicativo de celular tem o poder de bagunçar tanto a nossa cabeça?

A "Máquina de Caça-Níqueis" no Seu Bolso: Por que isso acontece?

A primeira coisa que precisamos entender – e talvez a mais libertadora – é que a culpa não é da sua "falta de força de vontade". As redes sociais não foram criadas para serem apenas murais de fotos inofensivos; elas são desenhadas por algumas das mentes mais brilhantes do mundo da tecnologia com um único objetivo: prender a sua atenção pelo maior tempo possível. Na internet, a sua atenção é o produto que é vendido para os anunciantes.

Para conseguir isso, os desenvolvedores do Vale do Silício usam truques da psicologia comportamental. Um dos exemplos mais claros é como o nosso cérebro reage às notificações. Cada vez que a tela do celular acende com um novo "like", um comentário ou uma mensagem, nosso cérebro libera uma pequena dose de dopamina, que é o neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa.

O problema é que o sistema funciona como uma máquina de caça-níqueis de cassino. Como você nunca sabe quantas curtidas vai receber, ou que tipo de vídeo vai aparecer na próxima rolagem da tela, o seu cérebro fica viciado nessa imprevisibilidade. A invenção da "rolagem infinita" (aquele feed que nunca acaba) tirou de nós o momento de parada natural. Antigamente, você chegava ao fim de uma página e tinha que clicar em "próxima". Hoje, o conteúdo simplesmente não tem fim, engolindo horas do nosso dia sem que a gente perceba.

Além da questão química do nosso cérebro, existe um fator emocional muito forte chamado de FOMO, sigla em inglês para "Fear Of Missing Out" (ou O Medo de Ficar de Fora). É aquela angústia que bate quando vemos todo mundo postando sobre uma festa que não fomos, uma viagem incrível, ou até mesmo um meme que todo mundo está comentando e nós não entendemos. As redes sociais criam a ilusão de que a vida de todo mundo é perfeita, menos a nossa, e que se nos desconectarmos, seremos esquecidos.

Para entender melhor esse mecanismo, vale muito a pena assistir ao trailer oficial do documentário "O Dilema das Redes", da Netflix, que explica de forma muito visual como somos manipulados pelos algoritmos:



Assista ao trailer do filme: Dilema das Redes

(Conteúdo adicional que traz informações e conhecimento pertinentes)

O Preço que Pagamos: As Consequências na Saúde Mental

Quando passamos a viver em função das telas, os efeitos colaterais na nossa vida real não demoram a aparecer. E as consequências vão muito além de apenas "perder tempo". Elas afetam a nossa saúde de maneira profunda:

1. O roubo do nosso sono:

Você tem o costume de levar o celular para a cama e ficar rolando o feed até o olho pesar? A luz azul emitida pelas telas engana o nosso cérebro, fazendo-o pensar que ainda é dia, o que bloqueia a produção de melatonina (o hormônio do sono). Além disso, ler notícias ou ver vídeos agitados nos deixa em estado de alerta. O resultado é uma noite de sono ruim, que gera cansaço, irritabilidade e falta de foco no dia seguinte.

2. A destruição da autoimagem e a "Dismorfia do Snapchat":

Talvez um dos efeitos mais tristes das redes sociais seja o impacto na forma como nos enxergamos. O Instagram e o TikTok estão cheios de filtros que afinam o nariz, clareiam os dentes e mudam o formato do rosto. O uso constante dessas ferramentas criou um padrão de beleza completamente irreal. Cirurgiões plásticos do mundo todo relatam um fenômeno assustador: adolescentes e jovens estão chegando aos consultórios com fotos de si mesmos com filtros, pedindo para que a cirurgia os deixe iguais às suas versões digitais. A insatisfação crônica com o próprio corpo tem gerado picos de depressão e transtornos alimentares.

3. O peso nas crianças e adolescentes:

Os jovens são os que mais sofrem. Como o cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, eles têm muito menos defesas contra os truques viciantes dos algoritmos. O Unicef emitiu alertas globais urgentes sobre como a ansiedade e a depressão dispararam entre os jovens na última década. Além da comparação constante com a vida perfeita dos influenciadores, existe o peso do cyberbullying. Se antes as agressões na escola acabavam quando o sinal tocava, hoje as humilhações perseguem os jovens 24 horas por dia através do celular, muitas vezes de forma anônima e devastadora.

O Que Podemos Fazer? Retomando o Controle

A solução para tudo isso não é jogar o celular no lixo e ir morar no meio do mato. A tecnologia trouxe avanços maravilhosos. O que precisamos urgentemente é mudar a forma como nos relacionamos com ela. Precisamos deixar de ser passageiros passivos e assumir o volante da nossa própria atenção.

Algumas atitudes simples podem transformar a sua rotina e aliviar a ansiedade. O primeiro passo é desativar todas as notificações que não sejam de mensagens de pessoas reais (ou seja, desligue os avisos de "fulano curtiu sua foto" ou "nova publicação de ciclano"). Outra dica valiosa é estabelecer horários sem tela, como não usar o celular na primeira hora da manhã, logo após acordar, e deixá-lo longe da cama na hora de dormir.

No fim das contas, a vida acontece no modo offline. O mundo real, com todos os seus defeitos, tédios e belezas sem filtro, ainda é o único lugar onde o abraço aperta de verdade e o sorriso não precisa de curtidas para ter valor. Precisamos cuidar da nossa mente, estabelecendo limites saudáveis. Afinal, a sua paz mental vale muito mais do que qualquer vídeo viral.

Referências

HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

NEWPORT, Cal. Minimalismo Digital: Para uma vida profunda em um mundo superficial. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

TWENGE, Jean M. iGen: Por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes - e completamente despreparadas para a vida adulta. São Paulo: nVersos, 2018.

Termo de Uso da Inteligência Artificial

Declaro, para os devidos fins de transparência, que a redação deste artigo contou com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa. A IA foi utilizada como um assistente de escrita para organizar os pensamentos, revisar a ortografia e garantir que o texto estivesse com referências e uma linguagem jornalística. Todo o roteiro, a seleção dos links reais direcionados a fontes confiáveis (BBC, UOL, YouTube e Unicef), o tom da conversa foram de autoria própria.


O que me levou a deletar o meu Instagram e Tiktok?

 Autoria: Manuela Broering

 Há mais ou menos duas semanas desinstalei meu Instagram e o meu TikTok, algo que pensei muito antes de fazer, porque, honestamente, eu achava que pessoas sem redes sociais se encaixavam em algum lugar entre os estereótipos construídos por mim de uma pessoa "esquisita" e de uma pessoa "evoluída" — honestamente, não me sinto nenhuma das duas. Então, por que decidi isso? O que eu esperava sentir e o que tirar dessa experiência sem prazo definido?

    Acho importante contextualizar brevemente de onde esse preconceito e esse estereótipo sobre essas pessoas surgiram para mim. Pensando rapidamente, me vêm à mente três pessoas que já conheci que não têm redes sociais. O que essas pessoas têm em comum entre si? Será que alguma delas tem algo em comum comigo?

    A primeira que conheci foi a minha supervisora no meu primeiro estágio, funcionária pública, psicóloga e mãe. Pelo que ela me contou, na adolescência ela se definia como hippie e sempre falava que, se eu a visse fora do ambiente de trabalho, ela estaria vestida de forma bem diferente. Também me lembro de que ela usava com grande frequência o status do WhatsApp — o que até então, para mim, era usado somente pela minha avó e sem querer. A segunda pessoa que conheci foi o namorado da minha irmã, estudante de Relações Internacionais na UFSC, que gosta de acampar e foi criado muito próximo da irmã mais velha e da mãe, instrutora de biodança.

    A terceira pessoa eu conheci nos Estados Unidos: estávamos trabalhando juntas num acampamento para crianças. Magnética, intencional, presente e britânica. Acredito que ela deixou uma marca mais importante na minha vida do que eu deixei na dela — e tudo bem. Faz quase três anos que não nos vemos, mas ela é um pensamento um tanto constante na minha vida. As pessoas mais próximas de mim sabem que quero dar ao meu cachorro dos sonhos, um cocker spaniel dourado, o nome dela.

    Em um encontro recente com amigas em comum, eu a mencionei e perguntei se elas sabiam de algo dela que pudesse alimentar esse meu pensamento, já que, como ela não tem Instagram, não consigo acompanhar as coisas incríveis que imagino que ela esteja fazendo. Como muitas das crianças que conheci descreveriam, eu estava tendo FoMO, Fear of Missing Out (medo de estar perdendo algo). Essa definição original, estabelecida por Przybylski et al. (2013), descreve o FoMO como o desejo de estar continuamente conectado com o que os outros estão fazendo. Curiosamente, ela tinha visitado essas mesmas amigas. Mandou uma mensagem avisando que ficaria alguns dias na casa delas e depois sumiu. Dias mais tarde, apareceu de novo só para dizer, em poucas palavras, o dia e o horário em que chegaria ao aeroporto — e sumiu outra vez. Até o dia do voo, nada de notícias. Elas acharam estranho, claro, mas conhecendo-a, foram mesmo assim, sem saber se ela realmente estaria lá. E estava.

    Agora talvez faça sentido para você que essa minha concepção de pessoas sem redes sociais esteja entre a minha própria compreensão de uma pessoa "esquisita" e de uma pessoa "evoluída". Não consigo definir qual das três pessoas mencionadas é a mais esquisita ou a mais evoluída, mas entendo que, mentalmente, caracterizei todas elas com ambas as definições.

    Por três verões trabalhei nos Estados Unidos, no mesmo acampamento para crianças — na frente de um lago que se tornou o meu lugar preferido no mundo: Fairview Lake em Newton, Nova Jersey, a 1 hora de Nova York, mas também a 20 minutos de qualquer civilização. Já conheci mais de 15 países e já estive em lagos muito mais bonitos que esse, mas, mesmo assim, esse lugar sempre será, de alguma maneira, o meu favorito. Nos últimos dois anos, dirigi um programa de treinamento de monitores para os adolescentes. Neste verão, me aventurei por 6 semanas com 47 estudantes do ensino médio, no meio do mato, em cabanas mais velhas que meus avós, sem eletricidade e com banheiro do lado de fora. Foi minha a decisão de restringir o uso do celular dos participantes a 10 minutos por dia, seguida por uma proposta vinda deles e então atualizada para 20 minutos a cada dois dias. Entre adolescentes, maiores níveis de exposição às telas foram associados a menor satisfação com a vida, enquanto níveis mais elevados de atividade física apresentaram associação com melhores indicadores de bem-estar (KHAN et al., 2021).

    Durante o verão, muitas vezes peguei o meu celular e não soube o que fazer. Nada me entretinha, nada fazia sentido; nenhum vídeo de 30 segundos mostrando um apartamento novo, compras ou qualquer fofoca era mais interessante do que aquilo que eu estava vivendo. Um dos meus monitores em treinamento fez uma postagem ao final do verão, cuja legenda definiu exatamente esse sentimento e se tornou a minha frase de efeito, motivação ou até explicação para esse meu movimento recente: "To be in a place more interesting than my phone" — estar em um lugar mais interessante que o meu celular. É exatamente isso que eu procuro: fazer da minha "vida real", não só dos meus verões, algo mais interessante que o meu celular; fazer da minha vida a minha principal preocupação e fonte de entretenimento.

    Após minha temporada nos Estados Unidos, engatei 20 dias de verão europeu, 1 postagem no feed e algo próximo de 10 stories. No meu último destino, encontrei uma das minhas melhores amigas, que havia feito um roteiro de países muito parecido com o meu. Acompanhei brevemente as milhares de postagens, em que as férias dela pareciam ter inspirado o título da série da Amazon, "O verão que mudou a minha vida". Mas, enquanto eu dividia as minhas aventuras e experiências das últimas duas semanas no velho continente, a realidade dela, na verdade, parecia um desastre, com crises, choro e a frase "não valeu a pena" sendo mencionada diversas vezes. Naquele momento de intimidade, ver o quanto a vida real dela era diferente do que ela mostrava aos milhares de seguidores me fez entender melhor o que as redes sociais viraram se tornaram e até o que é socialmente aceito e esperado de se compartilhar. A literatura aponta a existência de um "viés de positividade" na comunicação online, caracterizado pela maior frequência de compartilhamento de experiências positivas em comparação às negativas (REINECKE; TREPTE, 2014). No meu voo de 11 horas de volta para o Brasil, assisti a pelo menos uma hora de edição de fotos no Facetune no celular da mulher à minha frente. Segundo pesquisa realizada pelo Projeto Dove pela Autoestima, 78% das jovens pesquisadas tentavam mudar ou esconder alguma característica do corpo antes de publicar uma foto (DOVE..., 2021). Alguns dias após a minha chegada ao Brasil, pus em prática o que havia consumido horas de pensamento olhando para o teto de aviões.

     Agora que já expliquei os motivos que me levaram a essa decisão, surgiu uma pergunta ainda mais importante: o que mudou na minha rotina? A primeira coisa que percebi foi que, no mesmo dia em que desinstalei os aplicativos, me peguei diversas vezes fazendo o movimento automático e ameaçando clicar no exato lugar onde os aplicativos se encontravam no meu celular. Ato que há mais de 10 anos já foi mencionado nos estudos de Oulasvirta et al. (2012) como "checking habit" (hábito de checagem). Pesquisar lugares e pessoas se tornou mais difícil. Eu sempre buscava um vídeo do restaurante e pesquisava até as coisas mais banais no TikTok, buscando uma explicação em um vídeo de até 1 minuto. Dados de uma pesquisa interna do Google indicaram que quase 40% dos usuários norte-americanos entre 18 e 24 anos, ao procurar um local para almoçar, recorriam ao TikTok ou ao Instagram em vez do Google Search ou do Google Maps (PEREZ, 2022). "Stalkear" pessoas também se tornou mais difícil; agora o LinkedIn é o meu maior aliado. Essa semana, eu estava com uma amiga tentando lembrar o nome de um professor, e encontrei o currículo completo dele antes de ela achar o perfil em qualquer outra rede.

    Falando em stalkear, outro tópico que observei nos primeiros dias, ainda que não tenha afetado a minha rotina, é como o Instagram se tornou uma forma de iniciar relações amorosas (HASAN, 2025), talvez a principal dentro da minha geração. Essa ideia não parece pertencer aos contos de fadas que cresci escutando, ao jeito que a Olivia Dean descreve o amor na música "I've seen it", ou à maneira como imagino um dia contar aos meus filhos sobre como conheci o pai deles. Então, como uma romântica incurável conclui que, na verdade, eu não quero me relacionar com ninguém que curta meus stories ou uma postagem antiga para chamar atenção ou demonstrar algum interesse. Da mesma forma, também não quero me encaixar na porcentagem de 89% das jovens que relatam compartilhar selfies na esperança de receber validação de outras pessoas (DOVE..., 2021). Espero conhecer meu futuro parceiro de forma genuína e serendipitosa, e acreditar que o universo — ou as nossas próprias decisões — nos colocou no mesmo lugar, no mesmo dia; não que o mesmo algoritmo que entrega vídeos sobre política, mercado financeiro e jogos de aposta tenha entregado também o meu perfil.

    Junto com todas essas mudanças e percepções, o que eu mais notei foi como o silêncio se tornou mais presente. Reduzindo o meu tempo de tela, aumentei exponencialmente as vezes em que entrei no quarto da minha irmã. Ela se tornou vítima dos meus questionamentos, talvez aflorados por algo tão temido por muitos, mas intencionalmente buscado por mim: o tédio. Os experimentos realizados por Mann e Cadman (2014) indicaram que atividades entediantes podem aumentar a criatividade em determinadas tarefas. Os autores também discutem a possibilidade de que o devaneio (daydreaming) atue como um mecanismo intermediário entre o tédio e a criatividade. Há também quem acredite que, pelo fato de eu ter nascido no dia 10 de junho, o meu signo me faça uma pessoa naturalmente curiosa, ou talvez essa criatividade tenha sido alavancada então por tanto sonhar acordada e por todo o tempo que já passei olhando para o teto. Amor, monogamia, religião, adoção e até por que as cores das sirenes são azuis e vermelhas foram alguns dos meus alvos de questionamento.

    Cercada de mudanças, estabeleci algumas metas para mim mesma acerca do que fazer com meu tempo livre: estudar, ler, escrever e me exercitar. A primeira meta - o estudo - eu realmente consegui incrementar, no entanto, devo ter lido no máximo 5 páginas do meu livro e fiz o download do audiobook que eu deveria estar lendo para uma das minhas matérias da faculdade. Escrever é exatamente o que estou fazendo agora, e sobre me exercitar, me matriculei na natação 3 vezes por semana e estou no processo e esperança de ir à academia todos os dias. Também comecei a caminhar mais com a minha irmã e a minha cachorra, o que se tornou um dos meus momentos favoritos do dia, em que posso bombardea-la com perguntas como "que forma d'água você seria?", e ir à praça da rua ao lado colher amora. Também a prometi que faríamos cerâmica juntas.

    Concluo que nessas duas semanas pratiquei mais atividades físicas do que quando ainda conectada, descobri que a minha irmã seria o mar enquanto eu seria um lago, entrei em buracos sem fundo de pensamentos um tanto quanto ansiosos sobre o meu futuro, tirei 10 na minha prova de finanças e comecei a escrever esse blog. Ainda tenho que terminar de ler o meu livro, fazer uma escultura possivelmente questionável de cerâmica em alguma tarde qualquer e descobrir se essa escolha me faz também "esquisita" ou mais "evoluída". Não sei dizer ao certo quando voltarei para as redes, ou se um dia voltarei. Mas, por enquanto, posso afirmar que colher amora na praça ao lado está sendo mais interessante que um vídeo de 1 minuto. 

Referências

DOVE: aos 13 anos, 84% das meninas já usam filtros e os danos são imensos. Exame, 2021. Disponível em: https://exame.com/marketing/dove-aos-13-anos-84-das-meninas-ja-usam-filtros-e-os-danos-sao-imensos/. Acesso em: 18 set. 2026.

HASAN, Sadiba. Go, get the vibe: is Instagram the new celebrity dating app? The New York Times, 14 jun. 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/06/05/fashion/weddings/instagram-dating-app.html. Acesso em: 18 set. 2026.

KHAN, Asaduzzaman et al. Dose-dependent and joint associations between screen time, physical activity, and mental wellbeing in adolescents: an international observational study. The Lancet Child & Adolescent Health, v. 5, n. 10, p. 729-738, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2352-4642(21)00200-5. Acesso em: 18 set. 2026.

MANN, Sandi; CADMAN, Rebekah. Does being bored make us more creative? Creativity Research Journal, v. 26, n. 2, p. 165-173, 2014. DOI: 10.1080/10400419.2014.901073. Disponível em: https://clok.uclan.ac.uk/22263/. Acesso em: 18 set. 2026.

OULASVIRTA, Antti et al. Habits make smartphone use more pervasive. Personal and Ubiquitous Computing, v. 16, n. 1, p. 105-114, 2012. DOI: 10.1007/s00779-011-0412-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00779-011-0412-2. Acesso em: 18 set. 2026.

PEREZ, Sarah. Google exec suggests Instagram and TikTok are eating into Google's core products, Search and Maps. TechCrunch, 12 jul. 2022. Disponível em: https://techcrunch.com/2022/07/12/google-exec-suggests-instagram-and-tiktok-are-eating-into-googles-core-products-search-and-maps/. Acesso em: 18 set. 2026.

PRZYBYLSKI, Andrew K. et al. Motivational, emotional, and behavioral correlates of fear of missing out. Computers in Human Behavior, v. 29, n. 4, p. 1841-1848, 2013. DOI: 10.1016/j.chb.2013.02.014.

REINECKE, Leonard; TREPTE, Sabine. Authenticity and well-being on social network sites: a two-wave longitudinal study on the effects of online authenticity and the positivity bias in SNS communication. Computers in Human Behavior, v. 30, p. 95-102, 2014. DOI: 10.1016/j.chb.2013.07.033. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0747563213002689?via%3Dihub. Acesso em: 18 set. 2026.

Declaração de uso de Inteligência Artificial

Para a elaboração deste trabalho, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial nas seguintes etapas: a ferramenta Claude (Anthropic) foi empregada exclusivamente para a correção gramatical do texto e para a adequação das referências bibliográficas às normas da ABNT; as ferramentas ChatGPT (OpenAI) e Consensus foram utilizadas na etapa de levantamento bibliográfico, para a busca de pesquisas acadêmicas relacionadas ao tema abordado. O conteúdo, as ideias, os relatos pessoais e as conclusões apresentados no texto são de autoria própria.

YouTube x televisão: como a Copa do Mundo expôs a mudança no consumo de mídia no Brasil

 

A Copa de 2026 e a disputa CazéTV x Globo

A Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência que a disputa pela audiência deixou de acontecer apenas entre emissoras de televisão. Uma partida passou a poder ser acompanhada pela Globo, por outra emissora ou gratuitamente pelo YouTube. A CazéTV, projeto associado ao streamer Casimiro Miguel e à LiveMode, foi autorizada a transmitir os 104 jogos do Mundial. A Globo exibiu 55 partidas e o SBT, 32. O que antes dependia quase exclusivamente das emissoras tradicionais passou a ter um concorrente digital com alcance nacional (LANCE!, 2026).

O crescimento da CazéTV ilustra a dimensão dessa mudança. Segundo dados da LiveMode divulgados pelo Canaltech, o canal alcançou 86,1 milhões de dispositivos únicos no Brasil até 24 de junho de 2026, crescimento de 121% em relação ao período equivalente da Copa de 2022 (MAGALHÃES, 2026). Isso não significa que a Globo tenha perdido sua posição de grande alcance. A emissora informou ter alcançado 142,7 milhões de pessoas ao longo do torneio, considerando seus diferentes canais e plataformas (GE, 2026). No entanto, os números apresentados pelas duas empresas usam unidades diferentes e não devem ser comparados diretamente.

A disputa vai além de quem reúne mais espectadores em uma partida. Ela representa a concorrência entre dois modelos de distribuição: de um lado, a televisão tradicional, organizada por uma grade de programação; do outro, plataformas digitais que combinam transmissões ao vivo, conteúdo sob demanda, interação com o público e recomendações personalizadas.

A mudança de consumo: a audiência deixou de seguir aprogramação

Durante décadas, assistir à televisão significava adaptar a rotina aos horários definidos pelas emissoras. O consumidor escolhia entre os canais disponíveis e precisava estar diante do aparelho no momento em que seu programa favorito fosse exibido.

O YouTube alterou essa relação. O espectador passou a escolher não apenas o que assistir, mas também quando, onde e por quanto tempo. A plataforma reuniu vídeos curtos, programas completos, transmissões ao vivo e produções independentes em um mesmo ambiente, reduzindo a dependência de uma grade fixa.

Os dados brasileiros mostram a dimensão dessa transformação. Segundo levantamento da Kantar IBOPE Media referente a dezembro de 2025, a TV aberta respondeu por 55,8% da audiência medida em diferentes dispositivos, enquanto o vídeo online alcançou 37,2%. O YouTube, isoladamente, representou 21,6%, diante de 6,9% da TV por assinatura (PODER360, 2026).

A comparação revela dois movimentos distintos. A televisão aberta continua concentrando uma parcela expressiva da audiência, mas a TV paga já ocupa um espaço muito menor do que as plataformas digitais. Não se trata, portanto, de afirmar que toda a televisão foi substituída pelo YouTube, mas de reconhecer que o modelo de consumo baseado em canais por assinatura perdeu importância.

Essa transformação também chegou à própria tela da televisão. Em outubro de 2025, dados da Kantar divulgados pelo YouTube mostraram que a TV conectada havia ultrapassado o celular como principal tela de consumo da plataforma dentro dos domicílios brasileiros (YOUTUBE, 2025).

A TV por assinatura está ficando para trás

O declínio da TV paga não é apenas uma impressão causada pelo crescimento das plataformas digitais. Ele aparece diretamente nos números de assinantes. Em julho de 2015, o Brasil registrava 19,64 milhões de acessos de TV por assinatura, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações. Em julho de 2026, eram cerca de 5,9 milhões, conforme os dados da agência compilados pela Teleco. Trata-se de uma redução próxima de 70% em onze anos (ANATEL, 2015; TELECO, 2026).

A mudança geracional ajuda a compreender esse movimento. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Cetic.br, 86% dos usuários de internet entre 16 e 24 anos haviam assistido a vídeos, programas, filmes ou séries pela internet. Entre os usuários de 60 anos ou mais, o percentual era de 40% (NIC.BR, 2026).

Esses números não medem exclusivamente o YouTube nem demonstram que os jovens deixaram de assistir à televisão. Contudo, revelam que o consumo audiovisual pela internet está muito mais disseminado entre as gerações mais novas.

Um levantamento da Kantar, divulgado pelo próprio YouTube em 2023, também apontou que, entre os brasileiros de 18 a 24 anos, a plataforma apresentava alcance semanal 25 pontos percentuais superior ao da Globo, considerando o recorte de adultos pesquisados. Por se tratar de um estudo divulgado comercialmente pelo YouTube, o dado deve ser contextualizado (YOUTUBE, 2023).

Para esse público, o diferencial das plataformas não se resume ao preço. A variedade de conteúdos, a personalização das recomendações e a possibilidade de assistir a qualquer momento tornam menos necessária a contratação de um pacote de canais.

Essa preferência também aparece nas escolhas de catálogo. No Inside Video 2025, a Kantar identificou que consumidores de 15 a 24 anos deram especial importância à variedade de conteúdos disponíveis nos serviços de vídeo sob demanda (KANTAR IBOPE MEDIA, 2025).

A consequência é que a TV por assinatura deixa de ser uma contratação quase obrigatória para quem deseja variedade de entretenimento. O consumidor pode distribuir seu tempo entre plataformas gratuitas, serviços de streaming e canais especializados, pagando apenas pelos conteúdos que considera necessários.

O dinheiro da publicidade está acompanhando a audiência?

A transformação do consumo audiovisual também aparece no mercado publicitário. Afinal, se as pessoas passam mais tempo em plataformas digitais, é razoável esperar que os anunciantes direcionem parte de seus investimentos para esses ambientes.

Os dados do Cenp-Meios mostram que esse movimento está acontecendo no Brasil. Em 2021, a televisão aberta concentrava 45,4% dos investimentos publicitários registrados pelo levantamento, enquanto a internet representava 33,5%. Em 2024, ocorreu uma mudança importante: pela primeira vez no consolidado anual, a internet ultrapassou a TV aberta na participação dos investimentos (CENP, 2023; PEZZOTTI, 2025).

Em 2025, a internet recebeu aproximadamente R$ 11,7 bilhões, correspondentes a 40,6% do investimento contabilizado. A televisão aberta ficou com R$ 9,7 bilhões, ou 33,6% do total. O volume total de publicidade realizado pelas 330 agências participantes do painel chegou a R$ 28,9 bilhões, expansão de 10% em relação a 2024 (CENP, 2026).

Os números sugerem uma reorganização das prioridades dos anunciantes, apesar do investimento na internet não representar exclusivamente o YouTube. Ele também inclui publicidade em mecanismos de busca, redes sociais, portais e outras plataformas digitais.

Além disso, a redução da audiência não se traduz necessariamente em diminuição imediata das receitas de um meio. Apesar da queda no número de assinantes, a TV paga registrou crescimento do investimento contabilizado pelo Cenp-Meios, passando de aproximadamente R$ 1,52 bilhão em 2024 para R$ 2,25 bilhões em 2025 (PEZZOTTI, 2025; MEIO & MENSAGEM, 2026).

A relação entre audiência e publicidade, portanto, não é automática. Além do número de espectadores, os anunciantes consideram o perfil do público, o custo da veiculação, o alcance, a capacidade de segmentação e os resultados das campanhas. A ampliação da publicidade digital está associada a esse conjunto de fatores.

Ainda assim, a tendência é significativa: enquanto a audiência se fragmenta entre diferentes plataformas, a internet conquistou uma parcela crescente do orçamento publicitário brasileiro.

Quais categorias de conteúdo foram mais afetadas?

A mudança não ocorreu da mesma forma em todos os segmentos. A música é um exemplo de conteúdo cuja distribuição se adaptou ao ambiente digital: videoclipes, apresentações e entrevistas podem ser encontrados sob demanda, diminuindo a necessidade de acompanhar canais musicais com programação fixa. O conteúdo infantil, o humor, os tutoriais e os programas de nicho também se beneficiam da disponibilidade permanente e da possibilidade de buscar vídeos específicos.

O esporte, historicamente associado às emissoras de televisão e à aquisição de direitos de transmissão, passou a ter concorrentes digitais relevantes, como demonstra a CazéTV. O projeto transmitiu parte dos Jogos Olímpicos de 2024 e ampliou sua presença em competições nacionais e internacionais.

Por outro lado, novelas, grandes produções de ficção e jornalismo continuam sustentando parte da importância das emissoras e de seus serviços próprios de streaming. Nesses segmentos, o YouTube também pode funcionar como complemento, distribuindo trechos, entrevistas e conteúdos derivados.

Conclusão: o YouTube substituiu a televisão?

Os dados brasileiros indicam que a resposta depende do tipo de televisão analisado.

A TV por assinatura enfrenta uma retração expressiva de sua base de clientes. Ao mesmo tempo, o vídeo online ampliou sua participação no consumo audiovisual, especialmente entre públicos mais jovens, enquanto a internet conquistou uma parcela crescente do investimento publicitário.

A televisão aberta, entretanto, continua reunindo uma audiência significativa, como demonstrou a própria Copa do Mundo de 2026. Sua permanência indica que o crescimento das plataformas digitais não implica o desaparecimento imediato das emissoras tradicionais.

A transformação mais profunda parece estar na perda de importância da programação linear como principal forma de organizar o consumo audiovisual. O espectador já não depende necessariamente de um canal ou horário para encontrar aquilo que deseja assistir.

Referências

ANATEL - AGÊNCIA NACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES. Julho de 2015 fecha com 19,64 milhões de assinantes. Brasília, DF, 7 ago. 2015. Disponível em: https://www.gov.br/anatel/pt-br/assuntos/noticias/julho-de-2015-fecha-com-19-64-milhoes-de-assinantes. Acesso em: 21 set. 2026.

CENP - FÓRUM DA AUTORREGULAÇÃO DO MERCADO PUBLICITÁRIO. Cenp-Meios: painel de investimentos em mídia. São Paulo, 2023-2026. Disponível em: https://www.cenp.com.br/cenp-meios-relatorio. Acesso em: 21 set. 2026.

CETIC.BR. TIC Domicílios 2025: indicador C7 - atividades realizadas na internet. São Paulo: NIC.br, 2026. Disponível em: https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2025/individuos/C7/. Acesso em: 21 set. 2026.

KANTAR IBOPE MEDIA. Inside Video 2025. São Paulo: Kantar IBOPE Media, 2025. Disponível em: https://ibope-relatorios.fifty5blue.com/inside-video-2025/. Acesso em: 21 set. 2026.

LANCE!. Globo, SBT e CazéTV: veja quem venceu a guerra de audiência da Copa do Mundo. 22 jul. 2026. Disponível em: https://www.lance.com.br/copa-do-mundo/globo-cazetv-e-sbt-veja-quem-venceu-a-guerra-de-audiencia-da-copa-do-mundo.html. Acesso em: 21 set. 2026.

MAGALHÃES, André Lourenti. Copa do Mundo no YouTube tem recorde em live e dobra alcance da edição passada. Canaltech, 25 jun. 2026. Disponível em: https://canaltech.com.br/internet/copa-no-youtube-tem-recorde-de-live-e-ja-alcancou-75-milhoes-de-brasileiros/. Acesso em: 21 set. 2026.

MEIO & MENSAGEM. Cenp-Meios aponta crescimento de 10% em 2025. 5 mar. 2026. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/midia/cenp-meios-aponta-crescimento-de-10-em-2025. Acesso em: 21 set. 2026.

PODER360. Vídeo online avança sobre a televisão na audiência brasileira. Brasília, DF, 18 jan. 2026.

PEZZOTTI, Renato. Publicidade movimentou R$ 26,3 bi em 2024; digital ultrapassa TV. UOL Economia, 25 mar. 2025. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/03/25/publicidade-movimentou-r-263-bi-no-brasil-em-2024-digital-ultrapassa-tv.htm. Acesso em: 21 set. 2026.

TELECO. TV por assinatura no Brasil. Dados compilados com base na Anatel. Atualizado em 3 set. 2026. Disponível em: https://www.teleco.com.br/tvassinatura.asp. Acesso em: 21 set. 2026.

YOUTUBE. O YouTube e a audiência brasileira. YouTube Blog, 2023. Disponível em: https://blog.youtube/intl/pt-br/. Acesso em: 21 set. 2026.

YOUTUBE. TV conectada ultrapassa o celular como principal tela do YouTube nos lares brasileiros. YouTube Blog, 9 out. 2025. Disponível em: https://blog.youtube/intl/pt-br/. Acesso em: 21 set. 2026.


Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa

Durante a produção deste artigo, foi utilizada Inteligência Artificial Generativa (GPT-5.6 Sol, da OpenIA) como apoio na pesquisa e localização de fontes jornalísticas e acadêmicas atuais sobre o tema e na revisão de clareza e coesão do texto. Todo o conteúdo foi revisado, validado e é de responsabilidade integral do autor, que assume a autoria e a veracidade das informações apresentadas.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Muito além do doomscrolling: a retomada do controle e o uso consciente das redes sociais

Autoria: Angelina Schmitt Irgang

Basta destravar a tela. Em poucos segundos, o polegar já está deslizando por um feed que parece nunca ter fim. Essa cena, repetida diariamente por milhões de pessoas, deixou de ser exceção: no Brasil, 80% dos usuários de internet afirmam utilizar redes sociais no cotidiano, segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br/NIC.br. Comunicar-se por mensagens instantâneas é o uso mais citado, com 92% de adesão, o que mostra que essas plataformas se tornaram, antes de tudo, extensões da vida social.

O problema não é a existência das redes, mas o modelo de negócio construído sobre elas, quanto mais tempo de tela, mais dados, mais publicidade, mais lucro. Esse é o pano de fundo da chamada "economia da atenção", tema central do documentário O Dilema das Redes, disponível na Netflix, dirigido por Jeff Orlowski, no qual ex-funcionários de gigantes como Google, Facebook e Twitter relatam como algoritmos foram desenhados para capturar e reter a atenção humana pelo maior tempo possível (ORLOWSKI, 2020). Esse é o ponto de partida deste texto: entender os mecanismos que tornam as redes sociais tão viciantes é o primeiro passo para inverter a lógica e transformá-las em ferramentas de aproximação consciente, sem cair na armadilha de romantizá-las.



O design do vício: por que é tão difícil largar o celular


Não é falta de força de vontade. Cada notificação, curtida ou comentário aciona o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o mesmo neurotransmissor associado a outros comportamentos aditivos. Segundo o neurologista Frederico Mennucci de Haidar Jorge, em entrevista à Rádio Tupi, vídeos curtos como os do TikTok e dos Reels sequestram a atenção ao colocar o cérebro em ciclo constante de expectativa, o que reduz o interesse por atividades do cotidiano e amplia a ansiedade.

Um dos mecanismos mais estudados por trás desse comportamento é a rolagem infinita (infinite scroll), como não existe um ponto natural de parada no feed, o cérebro permanece em busca da próxima recompensa, em um esquema de reforço intermitente semelhante ao das máquinas caça-níqueis, no qual a recompensa nem sempre vem, mas a possibilidade de que venha é suficiente para manter o dedo deslizando pela tela (OBSERVADOR, 2025). É esse ciclo que sustenta o chamado doomscrolling (a rolagem compulsiva por conteúdos negativos ou alarmantes, movida por uma predisposição evolutiva a prestar atenção a ameaças) e o FOMO (fear of missing out), o medo de estar perdendo algo relevante ao ficar longe da tela (XATAKA BRASIL, 2024). Não é coincidência que esse desenho lembre jogos de azar, o ex-executivo do Google Tristan Harris, hoje à frente do Center for Humane Technology, organização dedicada a repensar a ética no design de produtos digitais, argumenta que boa parte da indústria de tecnologia se move pelo incentivo de capturar atenção a qualquer custo, o que produz consequências sociais que os próprios criadores dessas ferramentas já reconhecem publicamente.

Essa hipótese ganhou respaldo empírico recente. Um ensaio clínico randomizado publicado na revista científica BMC Medicine acompanhou 111 estudantes que reduziram o tempo de tela do celular para até duas horas diárias durante três semanas. Os resultados indicaram melhora em bem-estar, qualidade do sono e sintomas de estresse e depressão, sugerindo uma relação de causalidade, e não apenas de correlação, entre tempo de tela e saúde mental (PIEH et al., 2025). É uma evidência importante porque desloca o debate do campo da opinião para o da ciência: o problema não está apenas na percepção de quem se sente exausto pelas redes, mas em mecanismos mensuráveis.

No campo da psicologia social, o pesquisador norte-americano Jonathan Haidt aprofunda esse argumento em A Geração Ansiosa (2024), best-seller que associa o crescimento acelerado de smartphones e redes sociais, sobretudo após 2012, ao aumento de depressão, ansiedade e automutilação entre adolescentes. Segundo o autor, crianças e adolescentes passam, em média, de quatro a sete horas diárias conectados às redes, período que antes era dedicado a brincadeiras livres e à convivência presencial. Haidt tem sido criticado por parte da comunidade acadêmica, que considera insuficiente a evidência de causalidade direta entre redes sociais e a crise de saúde mental juvenil (CARTACAPITAL, 2025), um contraponto que vale registrar, já que nem todo pesquisador do tema concorda com a tese do "colapso" geracional atribuído às telas.



O outro lado da moeda: quando a rede aproxima e mobiliza


Reduzir as redes sociais a uma fonte de mal-estar seria simplista. Historicamente, elas também ampliaram a voz de grupos antes marginalizados no debate público. O conceito de "ativismo like", cunhado pelas pesquisadoras Sónia Pedro Sebastião e Ana Catarina Elias, descreve como campanhas de causas sociais encontraram nas redes um espaço de mobilização coletiva, ainda que o engajamento nem sempre se converta em ação concreta fora da tela (SEBASTIÃO; ELIAS, 2012). Movimentos como o #BlackLivesMatter e campanhas de defesa da Amazônia, como o Amazônia de Pé, são exemplos de como hashtags e compartilhamentos ajudaram a romper barreiras geográficas e a pressionar por pautas ambientais e de direitos humanos (CAVALHEIRO; URNAU; VELHO, 2023).

Também no campo pessoal, redes sociais sustentam vínculos que, sem elas, provavelmente se perderiam: famílias separadas por distância, grupos de apoio a doenças raras, comunidades de estudo e redes de solidariedade que se articulam em minutos diante de enchentes ou outras emergências. É esse duplo caráter, ferramenta de aprisionamento e ao mesmo tempo, de aproximação, que torna o debate sobre redes sociais tão mais interessante do que um discurso de condenação ou de defesa cega.


Invertendo a lógica: caminhos possíveis para o uso consciente


Diante desse cenário, o desafio não é abandonar as redes sociais, mas reeducar a relação com elas, sair da posição de consumidor passivo, que apenas recebe o que o algoritmo decide entregar, para a de curador ativo, que treina deliberadamente o próprio feed. Algumas práticas, já discutidas por especialistas em saúde mental e comportamento digital, ajudam nessa transição:


  • Curar o próprio feed. Deixar de seguir perfis que geram comparação ou ansiedade e buscar ativamente comunidades e criadores que agreguem valor, de ciência a arte, de apoio mútuo a debates qualificados, é uma forma de reeducar o próprio algoritmo, já que ele aprende com aquilo que escolhemos consumir.

  • Desativar notificações não essenciais. Menos interrupções significam menos gatilhos de dopamina ao longo do dia, como recomenda a psiquiatra Carol Vidal, da Universidade Johns Hopkins, em entrevista à CNN Brasil.

  • Usar as ferramentas nativas de bem-estar digital. Recursos como o Bem-Estar Digital, do Android, e os Filtros de Tela, do iOS, permitem definir limites diários de uso por aplicativo e visualizar o tempo real gasto em cada rede, devolvendo ao usuário informação sobre o próprio comportamento (TECMUNDO, 2018).

  • Colocar a tela em escala de cinza. Retirar as cores vibrantes e os ícones vermelhos de notificação reduz o apelo visual que prende a atenção, uma tática recomendada pelo próprio Tristan Harris e replicável tanto em Android quanto em iOS (CONSUMIDOR MODERNO, 2019).

  • Estabelecer horários sem tela, sobretudo antes de dormir e nos primeiros minutos após acordar, período em que o cérebro está mais vulnerável a estímulos de recompensa.

  • Fazer pausas programadas ("detox digital"), mesmo que curtas. Segundo reportagem da Forbes Brasil, esse tipo de pausa reconecta o usuário a atividades que haviam sido substituídas pelo tempo de tela, como hobbies e encontros presenciais.

  • Priorizar criação e interação sobre consumo passivo. Usar as redes para organizar encontros presenciais, divulgar projetos, debater ideias ou manter conversas significativas com pessoas distantes é o que resgata a premissa original dessas plataformas: servir à comunicação humana, e não substituí-la.


Nenhuma dessas medidas depende exclusivamente da força de vontade individual. Também cabe às próprias plataformas e, em alguma medida, à regulação pública, o debate sobre limites de idade, transparência de algoritmos e desenho ético de produto, tema que tem dividido opiniões entre defensores de mais controle estatal e defensores da autorregulação das empresas de tecnologia. De todo modo, entender o funcionamento do sistema é o que permite ao usuário sair da posição passiva, aquela que apenas rola a tela e assumir o papel de quem decide, de fato, como e para quê deseja se conectar.


Considerações finais


As redes sociais não são boas nem más por natureza, elas são ferramentas moldadas por interesses comerciais, mas também apropriadas por pessoas reais para se comunicar, aprender e se mobilizar. O caminho para um uso mais saudável não passa pela demonização das plataformas nem pela sua defesa ingênua, mas pelo reconhecimento de que existe sim, um projeto de captura da atenção por trás do design dessas ferramentas e que é possível, com informação e prática, retomar parte desse controle. Inverter a lógica da dependência para a lógica do uso consciente é, talvez, o exercício de cidadania digital mais urgente da década.


Referências Bibliográficas


CARTACAPITAL. Contra a infância hiperconectada. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/?p=447640. Acesso em: 17 set. 2026.

CAVALHEIRO, C. da R.; URNAU, J. I.; VELHO, L. V. L. Da floresta amazônica para a rede: o poder do ativismo digital na defesa do movimento Amazônia de Pé. Revista Educação, Ciência e Cultura, Unifacs, 2023. Disponível em: https://revistas.unifacs.br/index.php/redu/article/download/10293/5687. Acesso em: 17 set. 2026.

CENTER FOR HUMANE TECHNOLOGY. About us. [s.d.]. Disponível em: https://www.humanetech.com/. Acesso em: 17 set. 2026.

CNN BRASIL. Detox digital: 8 dicas para reduzir o uso excessivo de telas. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/detox-digital-8-dicas-para-reduzir-o-uso-excessivo-de-telas/. Acesso em: 17 set. 2026.

CONSUMIDOR MODERNO. Quer diminuir o tempo de celular? Tire as cores do display. 2019. Disponível em: https://www.consumidormoderno.com.br/2019/12/04/diminuir-tempo-celular-tire-cores-display/. Acesso em: 17 set. 2026.

FORBES BRASIL. 3 motivos para fazer detox digital das redes sociais. 2024. Disponível em: https://forbes.com.br/forbessaude/2024/11/3-motivos-para-fazer-detox-digital-redes-sociais/. Acesso em: 17 set. 2026.

HAIDT, J. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. Tradução de Lígia Azevedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

MOVIMENTO ECONÔMICO. Acesso à internet cresce entre classes sociais, mas ainda é desigual. 2025. Disponível em: https://movimentoeconomico.com.br/?p=107483. Acesso em: 17 set. 2026.

OBSERVADOR. Scroll infinito: uma nova droga digital. 2025. Disponível em: https://observador.pt/opiniao/scroll-infinito-uma-nova-droga-digital/. Acesso em: 17 set. 2026.

O DILEMA DAS REDES (The Social Dilemma). Direção: Jeff Orlowski. Produção: Larissa Rhodes. Estados Unidos: Netflix, 2020. 1 vídeo (94 min), son., color. Disponível na Netflix (streaming por assinatura). Informações sobre a obra disponíveis em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-280921/. Acesso em: 17 set. 2026.

PIEH, C.; HUMER, E.; HOENIGL, A.; SCHWAB, J.; MAYERHOFER, D.; DALE, R.; HAIDER, K. Smartphone screen time reduction improves mental health: a randomized controlled trial. BMC Medicine, v. 23, n. 107, 2025. DOI: 10.1186/s12916-025-03944-z. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11846175/. Acesso em: 17 set. 2026.

RÁDIO TUPI. Detox digital: 5 dicas para se desconectar e cuidar do cérebro. 2025. Disponível em: https://www.tupi.fm/?p=2220370. Acesso em: 17 set. 2026.

SEBASTIÃO, S. P.; ELIAS, A. C. O ativismo like: as redes sociais e a mobilização de causas. Sociedade e Cultura, v. 15, n. 1, p. 61-70, 2012. Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=70324609007. Acesso em: 17 set. 2026.

TECMUNDO. "Bem-estar digital": como a Google quer que você use menos o seu smartphone. 2018. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/software/130074-digital-google-quer-voce-use-smartphone.htm. Acesso em: 17 set. 2026.

XATAKA BRASIL. A psicologia do doomscrolling: a armadilha na qual nosso cérebro está programado para cair repetidamente. 2024. Disponível em: https://www.xataka.com.br/diversos/a-psicologia-do-doomscrolling-a-armadilha-na-qual-nosso-cerebro-esta-programado-para-cair-repetidamente. Acesso em: 17 set. 2026.

Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa


Durante a produção deste artigo, foi utilizada Inteligência Artificial Generativa (Claude, da Anthropic) como apoio na pesquisa e localização de fontes jornalísticas e acadêmicas atuais sobre o tema e na revisão de clareza e coesão do texto. Todo o conteúdo foi revisado, validado e é de responsabilidade integral da autora, que assume a autoria e a veracidade das informações apresentadas.