terça-feira, 22 de setembro de 2026

O que me levou a deletar o meu Instagram e Tiktok?

 Autoria: Manuela Broering

 Há mais ou menos duas semanas desinstalei meu Instagram e o meu TikTok, algo que pensei muito antes de fazer, porque, honestamente, eu achava que pessoas sem redes sociais se encaixavam em algum lugar entre os estereótipos construídos por mim de uma pessoa "esquisita" e de uma pessoa "evoluída" — honestamente, não me sinto nenhuma das duas. Então, por que decidi isso? O que eu esperava sentir e o que tirar dessa experiência sem prazo definido?

    Acho importante contextualizar brevemente de onde esse preconceito e esse estereótipo sobre essas pessoas surgiram para mim. Pensando rapidamente, me vêm à mente três pessoas que já conheci que não têm redes sociais. O que essas pessoas têm em comum entre si? Será que alguma delas tem algo em comum comigo?

    A primeira que conheci foi a minha supervisora no meu primeiro estágio, funcionária pública, psicóloga e mãe. Pelo que ela me contou, na adolescência ela se definia como hippie e sempre falava que, se eu a visse fora do ambiente de trabalho, ela estaria vestida de forma bem diferente. Também me lembro de que ela usava com grande frequência o status do WhatsApp — o que até então, para mim, era usado somente pela minha avó e sem querer. A segunda pessoa que conheci foi o namorado da minha irmã, estudante de Relações Internacionais na UFSC, que gosta de acampar e foi criado muito próximo da irmã mais velha e da mãe, instrutora de biodança.

    A terceira pessoa eu conheci nos Estados Unidos: estávamos trabalhando juntas num acampamento para crianças. Magnética, intencional, presente e britânica. Acredito que ela deixou uma marca mais importante na minha vida do que eu deixei na dela — e tudo bem. Faz quase três anos que não nos vemos, mas ela é um pensamento um tanto constante na minha vida. As pessoas mais próximas de mim sabem que quero dar ao meu cachorro dos sonhos, um cocker spaniel dourado, o nome dela.

    Em um encontro recente com amigas em comum, eu a mencionei e perguntei se elas sabiam de algo dela que pudesse alimentar esse meu pensamento, já que, como ela não tem Instagram, não consigo acompanhar as coisas incríveis que imagino que ela esteja fazendo. Como muitas das crianças que conheci descreveriam, eu estava tendo FoMO, Fear of Missing Out (medo de estar perdendo algo). Essa definição original, estabelecida por Przybylski et al. (2013), descreve o FoMO como o desejo de estar continuamente conectado com o que os outros estão fazendo. Curiosamente, ela tinha visitado essas mesmas amigas. Mandou uma mensagem avisando que ficaria alguns dias na casa delas e depois sumiu. Dias mais tarde, apareceu de novo só para dizer, em poucas palavras, o dia e o horário em que chegaria ao aeroporto — e sumiu outra vez. Até o dia do voo, nada de notícias. Elas acharam estranho, claro, mas conhecendo-a, foram mesmo assim, sem saber se ela realmente estaria lá. E estava.

    Agora talvez faça sentido para você que essa minha concepção de pessoas sem redes sociais esteja entre a minha própria compreensão de uma pessoa "esquisita" e de uma pessoa "evoluída". Não consigo definir qual das três pessoas mencionadas é a mais esquisita ou a mais evoluída, mas entendo que, mentalmente, caracterizei todas elas com ambas as definições.

    Por três verões trabalhei nos Estados Unidos, no mesmo acampamento para crianças — na frente de um lago que se tornou o meu lugar preferido no mundo: Fairview Lake em Newton, Nova Jersey, a 1 hora de Nova York, mas também a 20 minutos de qualquer civilização. Já conheci mais de 15 países e já estive em lagos muito mais bonitos que esse, mas, mesmo assim, esse lugar sempre será, de alguma maneira, o meu favorito. Nos últimos dois anos, dirigi um programa de treinamento de monitores para os adolescentes. Neste verão, me aventurei por 6 semanas com 47 estudantes do ensino médio, no meio do mato, em cabanas mais velhas que meus avós, sem eletricidade e com banheiro do lado de fora. Foi minha a decisão de restringir o uso do celular dos participantes a 10 minutos por dia, seguida por uma proposta vinda deles e então atualizada para 20 minutos a cada dois dias. Entre adolescentes, maiores níveis de exposição às telas foram associados a menor satisfação com a vida, enquanto níveis mais elevados de atividade física apresentaram associação com melhores indicadores de bem-estar (KHAN et al., 2021).

    Durante o verão, muitas vezes peguei o meu celular e não soube o que fazer. Nada me entretinha, nada fazia sentido; nenhum vídeo de 30 segundos mostrando um apartamento novo, compras ou qualquer fofoca era mais interessante do que aquilo que eu estava vivendo. Um dos meus monitores em treinamento fez uma postagem ao final do verão, cuja legenda definiu exatamente esse sentimento e se tornou a minha frase de efeito, motivação ou até explicação para esse meu movimento recente: "To be in a place more interesting than my phone" — estar em um lugar mais interessante que o meu celular. É exatamente isso que eu procuro: fazer da minha "vida real", não só dos meus verões, algo mais interessante que o meu celular; fazer da minha vida a minha principal preocupação e fonte de entretenimento.

    Após minha temporada nos Estados Unidos, engatei 20 dias de verão europeu, 1 postagem no feed e algo próximo de 10 stories. No meu último destino, encontrei uma das minhas melhores amigas, que havia feito um roteiro de países muito parecido com o meu. Acompanhei brevemente as milhares de postagens, em que as férias dela pareciam ter inspirado o título da série da Amazon, "O verão que mudou a minha vida". Mas, enquanto eu dividia as minhas aventuras e experiências das últimas duas semanas no velho continente, a realidade dela, na verdade, parecia um desastre, com crises, choro e a frase "não valeu a pena" sendo mencionada diversas vezes. Naquele momento de intimidade, ver o quanto a vida real dela era diferente do que ela mostrava aos milhares de seguidores me fez entender melhor o que as redes sociais viraram se tornaram e até o que é socialmente aceito e esperado de se compartilhar. A literatura aponta a existência de um "viés de positividade" na comunicação online, caracterizado pela maior frequência de compartilhamento de experiências positivas em comparação às negativas (REINECKE; TREPTE, 2014). No meu voo de 11 horas de volta para o Brasil, assisti a pelo menos uma hora de edição de fotos no Facetune no celular da mulher à minha frente. Segundo pesquisa realizada pelo Projeto Dove pela Autoestima, 78% das jovens pesquisadas tentavam mudar ou esconder alguma característica do corpo antes de publicar uma foto (DOVE..., 2021). Alguns dias após a minha chegada ao Brasil, pus em prática o que havia consumido horas de pensamento olhando para o teto de aviões.

     Agora que já expliquei os motivos que me levaram a essa decisão, surgiu uma pergunta ainda mais importante: o que mudou na minha rotina? A primeira coisa que percebi foi que, no mesmo dia em que desinstalei os aplicativos, me peguei diversas vezes fazendo o movimento automático e ameaçando clicar no exato lugar onde os aplicativos se encontravam no meu celular. Ato que há mais de 10 anos já foi mencionado nos estudos de Oulasvirta et al. (2012) como "checking habit" (hábito de checagem). Pesquisar lugares e pessoas se tornou mais difícil. Eu sempre buscava um vídeo do restaurante e pesquisava até as coisas mais banais no TikTok, buscando uma explicação em um vídeo de até 1 minuto. Dados de uma pesquisa interna do Google indicaram que quase 40% dos usuários norte-americanos entre 18 e 24 anos, ao procurar um local para almoçar, recorriam ao TikTok ou ao Instagram em vez do Google Search ou do Google Maps (PEREZ, 2022). "Stalkear" pessoas também se tornou mais difícil; agora o LinkedIn é o meu maior aliado. Essa semana, eu estava com uma amiga tentando lembrar o nome de um professor, e encontrei o currículo completo dele antes de ela achar o perfil em qualquer outra rede.

    Falando em stalkear, outro tópico que observei nos primeiros dias, ainda que não tenha afetado a minha rotina, é como o Instagram se tornou uma forma de iniciar relações amorosas (HASAN, 2025), talvez a principal dentro da minha geração. Essa ideia não parece pertencer aos contos de fadas que cresci escutando, ao jeito que a Olivia Dean descreve o amor na música "I've seen it", ou à maneira como imagino um dia contar aos meus filhos sobre como conheci o pai deles. Então, como uma romântica incurável conclui que, na verdade, eu não quero me relacionar com ninguém que curta meus stories ou uma postagem antiga para chamar atenção ou demonstrar algum interesse. Da mesma forma, também não quero me encaixar na porcentagem de 89% das jovens que relatam compartilhar selfies na esperança de receber validação de outras pessoas (DOVE..., 2021). Espero conhecer meu futuro parceiro de forma genuína e serendipitosa, e acreditar que o universo — ou as nossas próprias decisões — nos colocou no mesmo lugar, no mesmo dia; não que o mesmo algoritmo que entrega vídeos sobre política, mercado financeiro e jogos de aposta tenha entregado também o meu perfil.

    Junto com todas essas mudanças e percepções, o que eu mais notei foi como o silêncio se tornou mais presente. Reduzindo o meu tempo de tela, aumentei exponencialmente as vezes em que entrei no quarto da minha irmã. Ela se tornou vítima dos meus questionamentos, talvez aflorados por algo tão temido por muitos, mas intencionalmente buscado por mim: o tédio. Os experimentos realizados por Mann e Cadman (2014) indicaram que atividades entediantes podem aumentar a criatividade em determinadas tarefas. Os autores também discutem a possibilidade de que o devaneio (daydreaming) atue como um mecanismo intermediário entre o tédio e a criatividade. Há também quem acredite que, pelo fato de eu ter nascido no dia 10 de junho, o meu signo me faça uma pessoa naturalmente curiosa, ou talvez essa criatividade tenha sido alavancada então por tanto sonhar acordada e por todo o tempo que já passei olhando para o teto. Amor, monogamia, religião, adoção e até por que as cores das sirenes são azuis e vermelhas foram alguns dos meus alvos de questionamento.

    Cercada de mudanças, estabeleci algumas metas para mim mesma acerca do que fazer com meu tempo livre: estudar, ler, escrever e me exercitar. A primeira meta - o estudo - eu realmente consegui incrementar, no entanto, devo ter lido no máximo 5 páginas do meu livro e fiz o download do audiobook que eu deveria estar lendo para uma das minhas matérias da faculdade. Escrever é exatamente o que estou fazendo agora, e sobre me exercitar, me matriculei na natação 3 vezes por semana e estou no processo e esperança de ir à academia todos os dias. Também comecei a caminhar mais com a minha irmã e a minha cachorra, o que se tornou um dos meus momentos favoritos do dia, em que posso bombardea-la com perguntas como "que forma d'água você seria?", e ir à praça da rua ao lado colher amora. Também a prometi que faríamos cerâmica juntas.

    Concluo que nessas duas semanas pratiquei mais atividades físicas do que quando ainda conectada, descobri que a minha irmã seria o mar enquanto eu seria um lago, entrei em buracos sem fundo de pensamentos um tanto quanto ansiosos sobre o meu futuro, tirei 10 na minha prova de finanças e comecei a escrever esse blog. Ainda tenho que terminar de ler o meu livro, fazer uma escultura possivelmente questionável de cerâmica em alguma tarde qualquer e descobrir se essa escolha me faz também "esquisita" ou mais "evoluída". Não sei dizer ao certo quando voltarei para as redes, ou se um dia voltarei. Mas, por enquanto, posso afirmar que colher amora na praça ao lado está sendo mais interessante que um vídeo de 1 minuto. 

Referências

DOVE: aos 13 anos, 84% das meninas já usam filtros e os danos são imensos. Exame, 2021. Disponível em: https://exame.com/marketing/dove-aos-13-anos-84-das-meninas-ja-usam-filtros-e-os-danos-sao-imensos/. Acesso em: 18 set. 2026.

HASAN, Sadiba. Go, get the vibe: is Instagram the new celebrity dating app? The New York Times, 14 jun. 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/06/05/fashion/weddings/instagram-dating-app.html. Acesso em: 18 set. 2026.

KHAN, Asaduzzaman et al. Dose-dependent and joint associations between screen time, physical activity, and mental wellbeing in adolescents: an international observational study. The Lancet Child & Adolescent Health, v. 5, n. 10, p. 729-738, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2352-4642(21)00200-5. Acesso em: 18 set. 2026.

MANN, Sandi; CADMAN, Rebekah. Does being bored make us more creative? Creativity Research Journal, v. 26, n. 2, p. 165-173, 2014. DOI: 10.1080/10400419.2014.901073. Disponível em: https://clok.uclan.ac.uk/22263/. Acesso em: 18 set. 2026.

OULASVIRTA, Antti et al. Habits make smartphone use more pervasive. Personal and Ubiquitous Computing, v. 16, n. 1, p. 105-114, 2012. DOI: 10.1007/s00779-011-0412-2. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00779-011-0412-2. Acesso em: 18 set. 2026.

PEREZ, Sarah. Google exec suggests Instagram and TikTok are eating into Google's core products, Search and Maps. TechCrunch, 12 jul. 2022. Disponível em: https://techcrunch.com/2022/07/12/google-exec-suggests-instagram-and-tiktok-are-eating-into-googles-core-products-search-and-maps/. Acesso em: 18 set. 2026.

PRZYBYLSKI, Andrew K. et al. Motivational, emotional, and behavioral correlates of fear of missing out. Computers in Human Behavior, v. 29, n. 4, p. 1841-1848, 2013. DOI: 10.1016/j.chb.2013.02.014.

REINECKE, Leonard; TREPTE, Sabine. Authenticity and well-being on social network sites: a two-wave longitudinal study on the effects of online authenticity and the positivity bias in SNS communication. Computers in Human Behavior, v. 30, p. 95-102, 2014. DOI: 10.1016/j.chb.2013.07.033. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0747563213002689?via%3Dihub. Acesso em: 18 set. 2026.

Declaração de uso de Inteligência Artificial

Para a elaboração deste trabalho, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial nas seguintes etapas: a ferramenta Claude (Anthropic) foi empregada exclusivamente para a correção gramatical do texto e para a adequação das referências bibliográficas às normas da ABNT; as ferramentas ChatGPT (OpenAI) e Consensus foram utilizadas na etapa de levantamento bibliográfico, para a busca de pesquisas acadêmicas relacionadas ao tema abordado. O conteúdo, as ideias, os relatos pessoais e as conclusões apresentados no texto são de autoria própria.

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