Por Amanda Fullgraf Petry
A crescente de propagandas de medicamentos “milagrosos” vem da evolução tecnológica e sofisticação desses golpes que alteraram radicalmente a sua natureza e forma de propagação. Contribuem para isso os avanços na inteligência artificial, que facilitam a manipulação audiovisual; a microssegmentação algorítmica, que facilita o alcance desses tipos de anúncios a pessoas mais suscetíveis, como idosos e indivíduos com doenças crônicas; ou até mesmo em qual rede social os anúncios são enviados, a fim de dificultar o seu rastreio. As propagandas enganosas referentes à saúde nas redes sociais tornaram-se uma indústria sofisticada e altamente lucrativa, que tem sido chamada de uma “epidemia digital” ou “infodemia”.
No contexto mundial, o excesso de informações dificulta o acesso a orientação e dados confiáveis, assim, dando espaço a “informações” tendenciosas e fraudulentas. Em documentos disponibilizados pela Meta, é estimado que os seus usuários sejam expostos a cerca de 15 bilhões de golpes por dia, ao redor do globo, totalizando 10% da receita da empresa em 2024 (16 bilhões de dólares). O Brasil é estimado como sendo um dos países que mais é afetado pelas propagandas enganosas e a desinformação sobre saúde no mundo, apresentando grande volume de anúncios ilícitos, sendo coletados cerca de 170 mil anúncios entre abril e maio de 2025, onde 76% da amostra analisada se tratava de propagandas fraudulentas. Dentre os 165 produtos comercializados, nenhum possuía registro ativo na Anvisa em 2025, embora muitos usassem o nome da agência para simular legitimidade.
Para a criação desses conteúdos são utilizadas diferentes estratégias a fim de gerar uma falsa legitimidade e autoridade nos anúncios. Aproximadamente 74,8% dos anúncios fraudulentos, avaliados pelo NetLab UFRJ, se utilizavam de IA e manipulação audiovisual. Dentre elas os Deepfakes, que se utilizam principalmente de figuras públicas para tentar inferir credibilidade dos produtos, a Figura 1 indica as principais pessoas que tiveram a sua imagem manipulada por esses anúncios fraudulentos. Sendo também observados casos em que esses anunciantes se passam por marcas e veículos de mídia conhecidos pela população, se apropriando de linguagem técnica para parecerem verídicos.
Muitos desses anunciantes se utilizam de promessas milagrosas e com cura rápida, observadas em 99,5% das fraudes, sendo também em 82,7% dos casos como um “tratamento natural” ou “caseiro”, ou com pesquisas falsas, exageradas e sem fontes verificáveis para sustentar a eficácia do produto em 23,2% dos casos. Muitas vezes associadas a falsas narrativas, inferindo que essa “cura” barata e “altamente eficaz” é um segredo revelado das elites e da indústria farmacêutica, juntamente com o intuito de infundir desconfiança em relação à medicina. A Figura 2 indica essa distribuição entre as estratégias aplicadas nos anúncios.
As principais redes utilizadas para o compartilhamento desses tipos de anúncio são as plataformas da Meta e sistemas de mensagens privadas. O Facebook e o Instagram apresentam papéis similares, devido a ferramenta de microssegmentação, que permite que os golpistas atinjam grupos específicos para as suas supostas curas, como idosos ou pessoas com doenças crônicas. Já o YouTube é utilizado principalmente para disseminação de vídeos de tratamentos alternativos para diversas doenças, como câncer e diabetes. No entanto, é estimado que o destino final de 85,7% de anúncios fraudulentos no Brasil é o WhatsApp, sendo utilizado justamente por conta da criptografia, o que dificulta encontrar os golpistas, e o fácil redirecionamento do usuário para o site ou aplicativo de vendas. O Telegram também tem se destacado pelos grupos clandestinos, que chegaram a soma 82 mil usuários, com enfoque na venda de remédios controlados e canetas emagrecedoras sem registro.
A indústria da desinformação em saúde e as propagandas enganosas de medicamentos nas redes sociais causam impacto em múltiplas instâncias. A exposição a anúncios fraudulentos pode levar a comportamentos de risco, como atrasar a busca de tratamentos realmente eficazes, o que pode pode levar ao agravamento de certas doenças, e ocasionar intoxicações, dado o uso indiscriminado de substâncias sem orientação de especialistas e/ou o uso de medicamentos sem aval de órgãos reguladores. Os principais indivíduos afetados por esse tipo de golpe costumam ser pessoas de baixa renda e idosos, dado principalmente pela menor literacia digital desses indivíduos. Além de afetar as pessoas, acaba por infundir desconfiança na medicina atual e consensos científicos.
A tendência das propagandas enganosas sobre medicamentos é de crescimento acelerado, que já tem sido observado nos últimos anos. De 2023 a 2024 o número de detecções de desinformação gerada a partir de IA mais do que dobrou em alguns e países, e em 2025 no Brasil foram coletados aproximadamente 170 mil propagandas em apenas um mês. Sendo observado não apenas propagandas frequentes, mas também duradouras, onde foram observados anúncios que circulam ininterruptamente por mais de 3 anos, demonstrando a dificuldade e as falhas atreladas a moderação de conteúdos nas plataformas. As pesquisas apontam que nos próximos anos esses anúncios fraudulentos vão passar a ser mais aplicados em ambientes com maior criptografia, transformando os anúncios em redes abertas, tais quais o Facebook e Instagram, apenas como um chamativo para os indivíduos levando-os a redes como WhatsApp e Telegram, a fim de dificultar a ação das autoridades. Tal fato vai ser agravado pela maior exploração e avanço tecnológico da microssegmentação algorítmica e os avanços das inteligências artificiais generativas na criação desses conteúdos, assim tornando mais difícil identificar esses tipos de conteúdos.
O enfrentamento às propagandas enganosas de medicamentos nas redes sociais envolve uma combinação de medidas regulatórias e judiciais. No Brasil, a fiscalização é feita principalmente por órgãos como a ANVISA, que é o principal regulador das publicidades de medicamentos. Em ações recentes, em março de 2026, a ANVISA, suspendeu a publicidade de duas marcas de canetas emagrecedoras devido justamente pela sua irregularidade na divulgação dos medicamentos. Seguindo a Resolução-RDC nº 96/2008, que proíbe promessas de cura e testemunhos de celebridades para a recomendação de medicamentos. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também já atualizou as suas regras de publicidade médica, a fim de exigir a identificação clara do profissional e proibir a propaganda de produtos comerciais por médicos. Já o CONAR (Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária) já dispõe de instrumentos para coibir esses anúncios fraudulentos, apesar de ter sido apontado como lento por diferentes pesquisadores, frente a velocidade das redes sociais virtuais.
Em 2025, o STF declarou a inconstitucionalidade parcial do Artigo 19 do Marco Civil da Internet, assim fazendo com que as plataformas digitais possam ser responsabilizadas pelos conteúdos ilícitos de terceiros em suas redes quando não forem adotadas medidas eficazes para prevenir e remover essas fraudes. A Meta, no entanto, afirma estar testando tecnologias de reconhecimento facial e ferramentas de segurança para coibir golpes, além de afirmarem que rejeitam sistematicamente mais de 90% das denúncias feitas pelos seus usuários. Na União Europeia, já foi implementado um Código de Conduta sobre a Desinformação, o DSA (Digital Services Act), que impõe obrigações na transparência e na moderação de conteúdos às grandes empresas.
Enquanto ainda temos que lidar com esses conteúdos de medicamentos enganosos nas redes, algumas ações podem ser tomadas como indivíduos, como a busca e consulta desses supostos no site da ANVISA, sempre desconfie de curas milagrosas ou mensagens que prometam “resultados garantidos”, curas rápidas ou definitivas para tratamentos crônicos. Ter atenção a quem está divulgando os medicamentos, tendo em vista que médicos são proibidos de fazer propagandas de medicamentos, verificar as fontes utilizadas e ter cuidado com redirecionamentos para outras redes.
TERMO DE USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Este artigo conta com apoio da ferramenta de Inteligência Artificial NotebookLM para auxílio na estruturação textual, estruturação de ideias e revisão gramatical. Todo o conteúdo e as ideias foram revisados e enviados pelo autor, cabendo à ferramenta apenas a organização em tópicos e a realização de correções gramaticais necessárias.
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