terça-feira, 22 de setembro de 2026

Perfis, memórias e deepfakes: o que as redes sociais fazem com quem já morreu

 

Quando alguém morre, o perfil dessa pessoa no Instagram, no Facebook ou no TikTok não desaparece automaticamente. As fotos continuam publicadas, as mensagens antigas seguem salvas, e a plataforma muitas vezes continua sugerindo aquele perfil para os contatos, anos depois. As redes sociais viraram, sem que a maioria das pessoas planeje isso, uma espécie de arquivo póstumo da própria identidade, e é sobre elas, hoje, que recai boa parte da decisão sobre o que fazer com esse arquivo. A pergunta que fica é: quem deveria decidir isso de fato? A própria pessoa, ainda em vida? A família que fica? A plataforma? Ou, cada vez mais, um algoritmo de inteligência artificial que reconstrói quem já se foi a partir dos dados que essa pessoa deixou nas redes?

O que as próprias redes sociais já resolveram (e o que ainda não)

Meta e Google, donas de algumas das redes e serviços mais usados no Brasil, criaram mecanismos específicos para lidar com contas de usuários falecidos. No Facebook e no Instagram, existe a possibilidade de indicar um “contato herdeiro”: uma pessoa autorizada a administrar o perfil depois da morte do titular, podendo aceitar novos pedidos de amizade, fixar uma publicação de homenagem e alterar a foto de perfil, mas sem acesso às mensagens privadas da conta (OLHAR DIGITAL, 2022). Alternativamente, a conta pode ser “memorializada” (permanece visível, mas com funcionalidades limitadas) ou totalmente excluída, mediante apresentação de certidão de óbito (OLHAR DIGITAL, 2022).

O Google oferece um mecanismo parecido, batizado de Gerenciador de Contas Inativas: o usuário escolhe, em vida, até dez contatos de confiança, define o que cada um pode acessar (Gmail, Google Fotos, Drive, YouTube, entre outros) e determina depois de quanto tempo de inatividade essas instruções devem entrar em vigor (GOOGLE, [s. d.]). Sem esse planejamento prévio, a própria empresa informa que pode excluir contas inativas depois de dois anos sem uso, ou avaliar, caso a caso, pedidos de familiares sobre contas de pessoas falecidas (GOOGLE, [s. d.]).

O problema é que a maior parte dos usuários nunca configura essas opções. Na prática, quando a morte chega sem esse planejamento prévio, a decisão sobre o que fazer com o perfil, os dados e, cada vez mais, com a própria imagem da pessoa acaba recaindo sobre a família, sobre os termos de uso da plataforma ou, como mostram os casos a seguir, sobre empresas que enxergam ali uma oportunidade comercial usando inteligência artificial.

Quando falta um plano, a IA preenche a lacuna: o caso Pelé

Poucos casos ilustram tão bem esse vácuo quanto o de Pelé. Após a eliminação do Brasil na última Copa do Mundo, a fintech Elo lançou uma campanha publicitária que recriou a voz do Rei do Futebol por meio de inteligência artificial (B9, 2026). Antes disso, outro vídeo gerado artificialmente já havia circulado nas redes sociais mostrando um “Pelé” dizendo a Neymar que o autorizava a usar seu “trono e sua coroa” no Santos, frase que, evidentemente, o ex-jogador nunca pronunciou (OKUMURA, [s. d.]). Reportagens de TV também mostraram vídeos feitos por IA que “dão vida” a outras personalidades falecidas, como o piloto Ayrton Senna e a cantora Marília Mendonça, reproduzindo movimentos e falas que nunca existiram e circulando amplamente pelas redes (CNN BRASIL, 2026).

Para a pesquisadora Mercedes Okumura, autora do artigo “O Rei Pelé saúda Neymar: os problemas éticos do uso de inteligência artificial para recriar mortos”, publicado no Jornal da USP, o problema central é que “uma celebridade morta pode alcançar a imortalidade não apenas pela preservação de sua obra em vida, mas também pela participação em obras novas”, das quais ela jamais poderá discordar (OKUMURA, [s. d.]). Ou seja: sem um perfil ativo ou um plano definido em vida, quem acaba controlando a presença digital da pessoa morta é quem tiver interesse comercial em recriá-la.

Elis Regina, a Volkswagen, e uma polêmica que só existe porque há redes sociais

Outro episódio que expôs os limites éticos dessa tecnologia no Brasil foi o comercial da Volkswagen que recriou a cantora Elis Regina, falecida em 1982, cantando ao lado de sua filha, Maria Rita, para lançar um carro elétrico. A peça foi produzida com uma dublê, cujo rosto foi substituído digitalmente pelo de Elis a partir de imagens de arquivo (CANALTECH, 2023). A montadora afirmou publicamente que a campanha “foi acordada com a família da cantora” (CNN BRASIL, 2023), o que, do ponto de vista legal, bastaria para autorizar o uso da imagem no Brasil, já que os herdeiros detêm esse direito após a morte.

A repercussão, no entanto, só ganhou a dimensão que ganhou porque aconteceu dentro das redes sociais: foi lá que internautas lembraram, em poucas horas, que Elis Regina teve uma trajetória de resistência à ditadura militar, e questionaram se ela aprovaria ser associada a uma marca de automóveis com passado histórico controverso no país (CNN BRASIL, 2023). A pressão vinda das redes foi longe o suficiente para que o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) abrisse um processo para apurar possíveis problemas éticos na peça (ROLLING STONE BRASIL, 2023). O caso mostra que autorização legal e legitimidade ética nem sempre caminham juntas. Hoje são as próprias redes sociais que funcionam como o principal espaço de fiscalização pública desse tipo de uso.

Nem toda recriação gera a mesma polêmica: o caso dos Beatles

Em 2023, os Beatles lançaram “Now and Then”, descrita pela banda como sua última música, resultado de um processo em que a inteligência artificial foi usada para isolar e restaurar a voz de John Lennon, gravada de forma precária em uma fita demo décadas antes de sua morte, em 1980 (COMUNIDADE CULTURA E ARTE, 2023). Diferentemente dos casos anteriores, aqui não houve recriação de uma fala nova: a IA apenas limpou uma gravação já existente da própria voz do artista, e o processo foi conduzido pelos dois integrantes remanescentes da banda, Paul McCartney e Ringo Starr, que conviveram e trabalharam diretamente com Lennon. Também nesse caso, foram as redes sociais o principal espaço de divulgação e de reação do público, mas dessa vez de forma majoritariamente positiva, o que ajuda a mostrar que a diferença não está na tecnologia usada, e sim em quem autoriza e com que legitimidade.

Os “thanabots”: quando o próprio histórico nas redes sociais vira matéria-prima

A discussão não se limita a celebridades. Uma reportagem publicada em agosto de 2026 mostrou como chatbots de IA, apelidados de “thanabots” ou robôs do luto, já são oferecidos comercialmente para recriar a personalidade de pessoas comuns a partir de mensagens, áudios, fotos e vídeos deixados nas redes sociais, permitindo que familiares conversem com uma versão digital de quem morreu (SINDPD, 2026). Aqui a ligação com as redes sociais é direta: a matéria-prima dessas recriações não vem de arquivos especiais, mas exatamente da pegada digital que qualquer pessoa deixa ao postar, curtir e conversar online. Quanto mais uma pessoa usou redes sociais em vida, mais dados existem disponíveis para uma IA reconstruí-la depois da morte. A reportagem cita, inclusive, que a própria fundadora do aplicativo de IA Replika criou um chatbot a partir de mensagens de um amigo falecido, experiência que deu origem ao produto (SINDPD, 2026). Empresas como a Microsoft já registraram patentes para tecnologias semelhantes, e há serviços comerciais que cobram valores entre centenas e dezenas de milhares de dólares por esse tipo de “recriação digital” (SINDPD, 2026).

Especialistas ouvidos nessas reportagens levantam pelo menos três riscos recorrentes: primeiro, o de a IA produzir declarações que a pessoa nunca faria, distorcendo sua memória; segundo, o de essas recriações prolongarem artificialmente o luto, dificultando a aceitação da perda em vez de ajudar a elaborá-la; e terceiro, o de que essa “presença digital” dependa inteiramente da vontade comercial de uma empresa privada, que pode encerrar o serviço a qualquer momento, o que configura uma espécie de segunda morte digital.

Uma lacuna que a lei e as próprias redes ainda não fecharam

No Brasil, a legislação sobre herança digital ainda é limitada. Não existe uma lei federal específica que regule o que acontece com perfis, dados e, principalmente, a imagem e a voz de uma pessoa em conteúdos gerados por IA após sua morte. Na prática, quem decide hoje costuma ser a família, amparada de forma genérica pelo direito de imagem post mortem previsto na legislação civil brasileira, ou a própria plataforma, por meio de ferramentas como o contato herdeiro do Facebook e o Gerenciador de Contas Inativas do Google, recursos que existem, mas que a maioria das pessoas desconhece ou nunca configura. O algoritmo, isoladamente, não deveria decidir nada, mas, sem regras claras nem planejamento prévio, acaba sendo ele quem primeiro “decide” o que fazer com os dados deixados por alguém, simplesmente porque foi treinado para preencher lacunas com aquilo que parece mais provável, e não necessariamente com aquilo que a pessoa diria.

Os casos de Pelé, Elis Regina e dos Beatles mostram três desfechos possíveis para uma mesma tecnologia, todos amplificados pelas redes sociais: usada sem critério, ela pode distorcer memórias e gerar polêmica pública; usada com envolvimento de quem conheceu profundamente a pessoa, pode se tornar uma homenagem legítima. Entre esses dois extremos, talvez a resposta mais simples esteja no que já existe, mas é pouco usado: configurar, ainda em vida, o que cada rede social deve fazer com o seu perfil quando você não estiver mais aqui para decidir.

Referências

B9. Elo recria a voz de Pelé com IA em campanha após a eliminação do Brasil. B9, [S. l.], 2026. Disponível em: https://www.b9.com.br/elo-voz-pele-ia-campanha-copa/. Acesso em: 22 set. 2026.

CANALTECH. Como deepfake de Elis Regina foi criado para o comercial da Volkswagen. Canaltech, [S. l.], 2023. Disponível em: https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/como-deepfake-de-elis-regina-foi-criado-para-o-comercial-da-volkswagen-254874/. Acesso em: 22 set. 2026.

CNN BRASIL. Deepfake x IA: comercial com imagem de Elis Regina abre discussão sobre perigos no futuro. CNN Brasil, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/deepfake-x-ia-comercial-com-imagem-de-elis-regina-abre-discussao-sobre-perigos-no-futuro/. Acesso em: 22 set. 2026.

CNN BRASIL. Vídeo feito por IA “dá vida novamente” a Senna, Pelé, Marília Mendonça; assista. CNN Brasil, [S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/video-feito-por-ia-da-vida-novamente-a-senna-pele-marilia-mendonca-assista/. Acesso em: 22 set. 2026.

COMUNIDADE CULTURA E ARTE. Inteligência Artificial reúne The Beatles em “Now and Then”. Música recria voz de John Lennon. Comunidade Cultura e Arte, [S. l.], 2023. Disponível em: https://comunidadeculturaearte.com/inteligencia-artificial-reune-the-beatles-em-now-and-then-musica-recria-voz-de-john-lennon/. Acesso em: 22 set. 2026.

GOOGLE. Sobre o Gerenciador de Contas Inativas. Ajuda da Conta do Google, [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://support.google.com/accounts/answer/3036546?hl=pt-BR. Acesso em: 22 set. 2026.

OKUMURA, Mercedes. O Rei Pelé saúda Neymar: os problemas éticos do uso de inteligência artificial para recriar mortos. Jornal da USP, São Paulo, [s. d.]. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/o-rei-pele-sauda-neymar-os-problemas-eticos-do-uso-de-inteligencia-artificial-para-recriar-mortos/. Acesso em: 22 set. 2026.

OLHAR DIGITAL. Como configurar “contato herdeiro” para cuidar das contas de redes sociais após a morte. Olhar Digital, [S. l.], 27 jun. 2022. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2022/06/27/tira-duvidas/contato-herdeiro-como-configurar/. Acesso em: 22 set. 2026.

ROLLING STONE BRASIL. Elis Regina de IA em comercial da Volkswagen vira alvo do Conar. Rolling Stone Brasil, [S. l.], 2023. Disponível em: https://rollingstone.com.br/musica/elis-regina-de-ia-em-comercial-da-volkswagen-vira-alvo-do-conar/. Acesso em: 22 set. 2026.

SINDPD. IA dá voz a quem já morreu e cria nova fronteira para o luto. SindPD, [S. l.], 24 ago. 2026. Disponível em: https://sindpd.org.br/2026/08/24/ia-voz-morreu-fronteira-para-o-luto/. Acesso em: 22 set. 2026.

THE BEATLES. Now And Then (Official Music Video). YouTube, 2023. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Opxhh9Oh3rg. Acesso em: 22 set. 2026.

Declaração de uso de Inteligência Artificial

Este artigo contou com o auxílio da ferramenta de Inteligência Artificial Generativa Claude (Anthropic) nas etapas de pesquisa de fontes complementares, formatação do texto, organização das referências bibliográficas conforme as normas da ABNT e revisão textual. A seleção dos casos analisados, a estrutura argumentativa e as opiniões expressas são de responsabilidade do autor, que revisou e editou integralmente o conteúdo produzido com apoio da ferramenta.

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