Quando alguém morre, o perfil
dessa pessoa no Instagram, no Facebook ou no TikTok não desaparece
automaticamente. As fotos continuam publicadas, as mensagens antigas seguem
salvas, e a plataforma muitas vezes continua sugerindo aquele perfil para os
contatos, anos depois. As redes sociais viraram, sem que a maioria das pessoas
planeje isso, uma espécie de arquivo póstumo da própria identidade, e é sobre
elas, hoje, que recai boa parte da decisão sobre o que fazer com esse arquivo.
A pergunta que fica é: quem deveria decidir isso de fato? A própria pessoa,
ainda em vida? A família que fica? A plataforma? Ou, cada vez mais, um
algoritmo de inteligência artificial que reconstrói quem já se foi a partir dos
dados que essa pessoa deixou nas redes?
O que as próprias redes sociais já resolveram (e o que ainda não)
Meta e Google, donas de algumas
das redes e serviços mais usados no Brasil, criaram mecanismos específicos para
lidar com contas de usuários falecidos. No Facebook e no Instagram, existe a
possibilidade de indicar um “contato
herdeiro”: uma pessoa autorizada a administrar o perfil depois da morte do
titular, podendo aceitar novos pedidos de amizade, fixar uma publicação de
homenagem e alterar a foto de perfil, mas sem acesso às mensagens privadas da
conta (OLHAR DIGITAL, 2022). Alternativamente, a conta pode ser “memorializada”
(permanece visível, mas com funcionalidades limitadas) ou totalmente excluída,
mediante apresentação de certidão de óbito (OLHAR DIGITAL, 2022).
O Google oferece um mecanismo
parecido, batizado de Gerenciador
de Contas Inativas: o usuário escolhe, em vida, até dez contatos de
confiança, define o que cada um pode acessar (Gmail, Google Fotos, Drive,
YouTube, entre outros) e determina depois de quanto tempo de inatividade essas
instruções devem entrar em vigor (GOOGLE, [s. d.]). Sem esse planejamento
prévio, a própria empresa informa que pode excluir contas inativas depois de
dois anos sem uso, ou avaliar, caso a caso, pedidos de familiares sobre contas
de pessoas falecidas (GOOGLE, [s. d.]).
O problema é que a maior parte
dos usuários nunca configura essas opções. Na prática, quando a morte chega sem
esse planejamento prévio, a decisão sobre o que fazer com o perfil, os dados e,
cada vez mais, com a própria imagem da pessoa acaba recaindo sobre a família,
sobre os termos de uso da plataforma ou, como mostram os casos a seguir, sobre
empresas que enxergam ali uma oportunidade comercial usando inteligência
artificial.
Quando falta um plano, a IA preenche a lacuna: o caso Pelé
Poucos casos ilustram tão bem
esse vácuo quanto o de Pelé. Após a eliminação do Brasil na última Copa do
Mundo, a fintech Elo lançou uma campanha
publicitária que recriou a voz do Rei do Futebol por meio de inteligência
artificial (B9, 2026). Antes disso, outro vídeo
gerado artificialmente já havia circulado nas redes sociais mostrando um
“Pelé” dizendo a Neymar que o autorizava a usar seu “trono e sua coroa” no
Santos, frase que, evidentemente, o ex-jogador nunca pronunciou (OKUMURA, [s.
d.]). Reportagens de TV também mostraram vídeos feitos por IA que “dão vida” a
outras personalidades falecidas, como o piloto Ayrton Senna e a cantora Marília
Mendonça, reproduzindo movimentos e falas que nunca existiram e circulando
amplamente pelas redes (CNN BRASIL, 2026).
Para a pesquisadora Mercedes
Okumura, autora do artigo “O
Rei Pelé saúda Neymar: os problemas éticos do uso de inteligência artificial
para recriar mortos”, publicado no Jornal da USP, o problema central é que
“uma celebridade morta pode alcançar a imortalidade não apenas pela preservação
de sua obra em vida, mas também pela participação em obras novas”, das quais
ela jamais poderá discordar (OKUMURA, [s. d.]). Ou seja: sem um perfil ativo ou
um plano definido em vida, quem acaba controlando a presença digital da pessoa
morta é quem tiver interesse comercial em recriá-la.
Elis Regina, a Volkswagen, e uma polêmica que só existe porque há redes
sociais
Outro episódio que expôs os
limites éticos dessa tecnologia no Brasil foi o comercial
da Volkswagen que recriou a cantora Elis Regina, falecida em 1982, cantando
ao lado de sua filha, Maria Rita, para lançar um carro elétrico. A peça foi
produzida com uma dublê, cujo rosto foi substituído digitalmente pelo de Elis a
partir de imagens de arquivo (CANALTECH, 2023). A montadora afirmou
publicamente que a campanha “foi acordada com a família da cantora” (CNN
BRASIL, 2023), o que, do ponto de vista legal, bastaria para autorizar o uso da
imagem no Brasil, já que os herdeiros detêm esse direito após a morte.
A repercussão, no entanto, só
ganhou a dimensão que ganhou porque aconteceu dentro das redes sociais: foi lá
que internautas lembraram, em poucas horas, que Elis Regina teve uma trajetória
de resistência à ditadura militar, e questionaram se ela aprovaria ser
associada a uma marca de automóveis com passado histórico controverso no país
(CNN BRASIL, 2023). A pressão vinda das redes foi longe o suficiente para que o
Conar
(Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) abrisse um processo
para apurar possíveis problemas éticos na peça (ROLLING STONE BRASIL, 2023). O
caso mostra que autorização legal e legitimidade ética nem sempre caminham
juntas. Hoje são as próprias redes sociais que funcionam como o principal
espaço de fiscalização pública desse tipo de uso.
Nem toda recriação gera a mesma polêmica: o caso dos Beatles
Em 2023, os Beatles lançaram “Now and Then”, descrita
pela banda como sua última música, resultado de um processo em que a
inteligência artificial foi usada para isolar e restaurar a voz de John Lennon,
gravada de forma precária em uma fita demo décadas antes de sua morte, em 1980
(COMUNIDADE
CULTURA E ARTE, 2023). Diferentemente dos casos anteriores, aqui não houve
recriação de uma fala nova: a IA apenas limpou uma gravação já existente da
própria voz do artista, e o processo foi conduzido pelos dois integrantes
remanescentes da banda, Paul McCartney e Ringo Starr, que conviveram e
trabalharam diretamente com Lennon. Também nesse caso, foram as redes sociais o
principal espaço de divulgação e de reação do público, mas dessa vez de forma
majoritariamente positiva, o que ajuda a mostrar que a diferença não está na tecnologia
usada, e sim em quem autoriza e com que legitimidade.
Os “thanabots”: quando o próprio histórico nas redes sociais vira
matéria-prima
A discussão não se limita a
celebridades. Uma reportagem
publicada em agosto de 2026 mostrou como chatbots de IA, apelidados de
“thanabots” ou robôs do luto, já são oferecidos comercialmente para recriar a
personalidade de pessoas comuns a partir de mensagens, áudios, fotos e vídeos
deixados nas redes sociais, permitindo que familiares conversem com uma versão
digital de quem morreu (SINDPD, 2026). Aqui a ligação com as redes sociais é
direta: a matéria-prima dessas recriações não vem de arquivos especiais, mas
exatamente da pegada digital que qualquer pessoa deixa ao postar, curtir e conversar
online. Quanto mais uma pessoa usou redes sociais em vida, mais dados existem
disponíveis para uma IA reconstruí-la depois da morte. A reportagem cita,
inclusive, que a própria fundadora do aplicativo de IA Replika criou um chatbot
a partir de mensagens de um amigo falecido, experiência que deu origem ao
produto (SINDPD, 2026). Empresas como a Microsoft já registraram patentes para
tecnologias semelhantes, e há serviços comerciais que cobram valores entre
centenas e dezenas de milhares de dólares por esse tipo de “recriação digital”
(SINDPD, 2026).
Especialistas ouvidos nessas
reportagens levantam pelo menos três riscos recorrentes: primeiro, o de a IA
produzir declarações que a pessoa nunca faria, distorcendo sua memória;
segundo, o de essas recriações prolongarem artificialmente o luto, dificultando
a aceitação da perda em vez de ajudar a elaborá-la; e terceiro, o de que essa
“presença digital” dependa inteiramente da vontade comercial de uma empresa
privada, que pode encerrar o serviço a qualquer momento, o que configura uma
espécie de segunda morte digital.
Uma lacuna que a lei e as próprias redes ainda não fecharam
No Brasil, a legislação sobre
herança digital ainda é limitada. Não existe uma lei federal específica que
regule o que acontece com perfis, dados e, principalmente, a imagem e a voz de
uma pessoa em conteúdos gerados por IA após sua morte. Na prática, quem decide
hoje costuma ser a família, amparada de forma genérica pelo direito de imagem
post mortem previsto na legislação civil brasileira, ou a própria plataforma,
por meio de ferramentas como o contato herdeiro do Facebook e o Gerenciador de
Contas Inativas do Google, recursos que existem, mas que a maioria das pessoas
desconhece ou nunca configura. O algoritmo, isoladamente, não deveria decidir
nada, mas, sem regras claras nem planejamento prévio, acaba sendo ele quem
primeiro “decide” o que fazer com os dados deixados por alguém, simplesmente
porque foi treinado para preencher lacunas com aquilo que parece mais provável,
e não necessariamente com aquilo que a pessoa diria.
Os casos de Pelé, Elis Regina e
dos Beatles mostram três desfechos possíveis para uma mesma tecnologia, todos
amplificados pelas redes sociais: usada sem critério, ela pode distorcer
memórias e gerar polêmica pública; usada com envolvimento de quem conheceu
profundamente a pessoa, pode se tornar uma homenagem legítima. Entre esses dois
extremos, talvez a resposta mais simples esteja no que já existe, mas é pouco
usado: configurar, ainda em vida, o que cada rede social deve fazer com o seu
perfil quando você não estiver mais aqui para decidir.
Referências
B9. Elo recria a voz de Pelé com
IA em campanha após a eliminação do Brasil. B9, [S. l.], 2026.
Disponível em: https://www.b9.com.br/elo-voz-pele-ia-campanha-copa/.
Acesso em: 22 set. 2026.
CANALTECH. Como deepfake de Elis
Regina foi criado para o comercial da Volkswagen. Canaltech, [S. l.],
2023. Disponível em: https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/como-deepfake-de-elis-regina-foi-criado-para-o-comercial-da-volkswagen-254874/.
Acesso em: 22 set. 2026.
CNN BRASIL. Deepfake x IA:
comercial com imagem de Elis Regina abre discussão sobre perigos no futuro. CNN
Brasil, [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/deepfake-x-ia-comercial-com-imagem-de-elis-regina-abre-discussao-sobre-perigos-no-futuro/.
Acesso em: 22 set. 2026.
CNN BRASIL. Vídeo feito por IA
“dá vida novamente” a Senna, Pelé, Marília Mendonça; assista. CNN Brasil,
[S. l.], [2026]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/video-feito-por-ia-da-vida-novamente-a-senna-pele-marilia-mendonca-assista/.
Acesso em: 22 set. 2026.
COMUNIDADE CULTURA E ARTE.
Inteligência Artificial reúne The Beatles em “Now and Then”. Música recria voz
de John Lennon. Comunidade Cultura e Arte, [S. l.], 2023. Disponível em:
https://comunidadeculturaearte.com/inteligencia-artificial-reune-the-beatles-em-now-and-then-musica-recria-voz-de-john-lennon/.
Acesso em: 22 set. 2026.
GOOGLE. Sobre o Gerenciador de
Contas Inativas. Ajuda da Conta do Google, [S. l.], [s. d.]. Disponível
em: https://support.google.com/accounts/answer/3036546?hl=pt-BR.
Acesso em: 22 set. 2026.
OKUMURA, Mercedes. O Rei Pelé
saúda Neymar: os problemas éticos do uso de inteligência artificial para
recriar mortos. Jornal da USP, São Paulo, [s. d.]. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/o-rei-pele-sauda-neymar-os-problemas-eticos-do-uso-de-inteligencia-artificial-para-recriar-mortos/.
Acesso em: 22 set. 2026.
OLHAR DIGITAL. Como configurar
“contato herdeiro” para cuidar das contas de redes sociais após a morte. Olhar
Digital, [S. l.], 27 jun. 2022. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2022/06/27/tira-duvidas/contato-herdeiro-como-configurar/.
Acesso em: 22 set. 2026.
ROLLING STONE BRASIL. Elis
Regina de IA em comercial da Volkswagen vira alvo do Conar. Rolling Stone
Brasil, [S. l.], 2023. Disponível em: https://rollingstone.com.br/musica/elis-regina-de-ia-em-comercial-da-volkswagen-vira-alvo-do-conar/.
Acesso em: 22 set. 2026.
SINDPD. IA dá voz a quem já
morreu e cria nova fronteira para o luto. SindPD, [S. l.], 24 ago. 2026.
Disponível em: https://sindpd.org.br/2026/08/24/ia-voz-morreu-fronteira-para-o-luto/.
Acesso em: 22 set. 2026.
THE BEATLES. Now And Then
(Official Music Video). YouTube, 2023. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Opxhh9Oh3rg.
Acesso em: 22 set. 2026.
Declaração de uso de Inteligência Artificial
Este artigo contou com o auxílio
da ferramenta de Inteligência Artificial Generativa Claude (Anthropic) nas
etapas de pesquisa de fontes complementares, formatação do texto, organização
das referências bibliográficas conforme as normas da ABNT e revisão textual. A
seleção dos casos analisados, a estrutura argumentativa e as opiniões expressas
são de responsabilidade do autor, que revisou e editou integralmente o conteúdo
produzido com apoio da ferramenta.
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