terça-feira, 22 de setembro de 2026

A ditadura do clique: como a busca por métricas esvaziou a produção de conteúdo na internet

Por: Alessandro Menezes Cunha

Em uma rolagem rápida pelo feed do Instagram ou pelo For You do TikTok, a sensação de déjà-vu é praticamente inevitável. Vídeos de pouquíssimos segundos, transições idênticas, áudios em alta repetidos à exaustão e conselhos rasos empacotados como "segredos do sucesso" dominam a tela. O fenômeno não é mera coincidência, mas o resultado direto de uma engrenagem que priorizou a quantidade em detrimento da qualidade a famosa massificação do chamado conteúdo topo de funil.

Na arquitetura do marketing de conteúdo, o topo de funil representa a etapa de atração, aquela voltada para alcançar o maior número de pessoas com temas genéricos, simples e de fácil assimilação. O problema surge quando esse estágio, que deveria ser apenas a porta de entrada para discussões mais densas, transforma-se no destino final.

A cultura da superficialidade e a métrica de vaidade

Com a evolução das mecânicas de distribuição digital, nas quais os algoritmos das redes sociais passaram a premiar a retenção imediata e a viralização em massa, criadores de conteúdo e marcas viraram reféns das "métricas de vaidade". Curtidas, salvamentos e compartilhamentos tornaram-se a única moeda de troca relevante no mercado da atenção.

Para alimentar esse fluxo ininterrupto, a profundidade nos assuntos foi gradativamente abandonada. Produzir um ensaio elaborado, checar fontes com rigor ou desenvolver uma análise crítica exige tempo e isso se torna uma mercadoria escassa em um ecossistema que exige postagens diárias. Em contrapartida, replicar uma tendência (trend) do momento requer poucos minutos e entrega alcance rápido.

O resultado é uma reprodução em cadeia de fórmulas prontas. Conceitos complexos da psicologia, economia, saúde e política são reduzidos a listas simplistas de "3 passos para" ou "5 coisas que você não sabia", eliminando nuances essenciais para a compreensão real dos temas.

A estética do conhecimento e o esvaziamento do debate

Outro fator determinante nesse processo é a estética da informação. O conteúdo deixa de ter relevância pelo seu valor e passa a ser avaliado pela sua capacidade de se enquadrar em padrões visuais dinâmicos, com legendas chamativas, ritmo frenético e cortes a cada dois segundos. A forma engoliu o conteúdo.

Essa dinâmica criou uma classe de produtores digitais focados unicamente na replicação de discursos. Pouco importa se o criador domina o assunto sobre o qual fala; o que conta é a sua habilidade de atuar conforme as regras do engajamento. Cria-se, assim, um ciclo vicioso de ilusionismo intelectual, no qual opiniões rasas são propagadas com tom de autoridade acadêmica, confundindo o espectador e empobrecendo o debate público sobre temas decisivos da sociedade.

O impacto no público e no ecossistema digital

Essa epidemia de hiperproliferação de mensagens afeta diretamente o comportamento dos usuários. O consumo excessivo de informações rasas na internet gera a falsa impressão de aprendizado contínuo, enquanto na verdade cultiva a fadiga mental, a perda da capacidade de atenção e o enfraquecimento do pensamento crítico. Trata-se da consolidação da "infobesidade": consome-se um volume exorbitante de dados, mas absorve-se e processa-se quase nada.

Para os profissionais e criadores que buscam produzir debates aprofundados, o cenário tornou-se altamente desfavorável. O sistema frequentemente penaliza textos longos ou vídeos explicativos sem ganchos dramáticos, empurrando o conteúdo analítico para a invisibilidade.

A internet, que nasceu como uma promessa de democratização do conhecimento e hiperconexão de saberes, corre o risco de se consolidar como uma grande vitrine de eco, onde todos repetem as mesmas frases para plateias cada vez mais desatentas. Resta saber até quando o público aceitará a embalagem sem se importar com a ausência de conteúdo.

Referências

  • KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 5.0: tecnologia para a humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.

  • RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

  • SHIRKY, Clay. A cultura da participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Declaração de Uso de Inteligência Artificial Generativa

Declaro que a ferramenta de Inteligência Artificial Generativa Gemini (desenvolvida pela Google) foi utilizada durante o processo de produção deste artigo. A IA foi empregada nas etapas de expansão argumentativa e apoio na redação inicial. O conteúdo gerado passou por posterior revisão, edição e adequação crítica por parte da autoria responsável, garantindo a originalidade, coerência das ideias e precisão das referências apresentadas.

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